Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 14/05/2010

Da Bodega do Ivan: O corno, o delegado e o baseado

O Ivan Moraes (esse cabra na foto aí do lado), como a maioria absoluta dos meus amigos pernambucanos, é uma figuraça. Daqueles que a gente sempre tem prazer de ler e ouvir.

Jornalista, militante de direitos humanos e da luta pela democratização da comunicação, rubro-negro (do Sport, claro!) e pai da Lua, o Ivanzinho também é um exímio conhecedor das ladeiras de Olinda.

Seguem duas recentes e excelentes “anacrônicas” do seu Bodega.

No Twitter, ele tá aqui: http://twitter.com/ivanmoraesfilho

O corno, esse incompreendido

14 May 2010 Autor: Ivan Moraes Filho Categoria(s): AnaCrônicas

Muito já se escreveu, falou e cantou sobre “o corno”.

Mas agora eu encontrei um gancho e vou falar também umas linhazinhas chifrudas sobre esse personagem tão intrinsecamente ligado à nossa tradição machista, homofóbica e tabacuda.

Primeiro vamos lembrar que não é a mulher quem ‘corneia’ um homem.

O corno faz-se corno por ele mesmo.

Um homem que foi traído pela companheira é apenas um homem que foi traído pela companheira.

O corno é o que passa recibo. É o que sai do sério. É o que não admite a possibilidade de uma mulher não ser sua propriedade.

E para isso, convenhamos, independe de reais ou virtuais adultérios.

Corno que é corno não precisa nem estar em relacionamento algum.

Já houve um tempo em que muita gente ignorante achava que a honra de um homem traído se “lavava com sangue”. Aliás, até muito pouco tempo até o Código Penal acreditava nessa leseira.

A verdade, sabemos bem hoje, é que a honra de um homem não tem nenhuma relação com o fato de ele ter ou não sido traído. De ter ou não sido chamado de (ou se sentido) corno.

A honra de um homem, por sinal, reside inclusive na percepção de que não é dono da companheira. Que não tem nenhum direito sobre a vida ou a morte da mulher que pensa amar. Que não tem nem a autoridade para permitir ou negar sua saída de casa.

Não passa pela cabeça de um homem honrado usar de violência como ferramenta legítima de resolução de conflito seja com outros homens, seja com mulheres.

Muito menos fugir de suas responsabilidades.

Esconder-se de seus erros não é coisa de homem honrado. É coisa de corno mesmo.

*****

Saia justa na delegacia

May 2010 Autor: Ivan Moraes Filho Categoria(s): AnaCrônicas

blitzbaculejo cortada

Essa história aconteceu numa cidade bem longe daqui.

Com pessoas completamente desconhecidas.

Aliás, eu não sei nem como foi que eu fiquei sabendo.

Só sei que foi assim:

Na sala do delegado, já era noite quando a imprensa foi convidada a registrar uma apreensão. O procedimento é corriqueiro e acontece sempre que a polícia acha que tem algo para mostrar.

Nesse dia, eram coisas que haviam sido encontradas com um grupo de assaltantes que teve a carreira interrompida durante um baculejo.

Na mesa da autoridade, bem arrumadinhos estavam três revólveres, quatro telefones e sete cigarros de maconha prontos para o consumo.

Os repórteres perguntavam perguntavam enquanto os fotógrafos clicavam clicavam.

Findos os cliques e interrogações, a polícia já havia guardado o material quando uma equipe de reportagem chegou atrasada.

“Dotô, arruma a mesa de novo pra  agente bater a foto, por favor?”

“Porra, aí é foda… Já guardamos…”

“Por favor, dotô? Num instante o senhor arruma e a gente faz o registro”.

O delegado mais uma vez organiza os itens apreendidos. Como de praxe, tudo bem arrumadinho.

Entre um clique e outro, o fotógrafo se intriga:

“Ô, dotô? Não eram sete baseados? Aqui só tem seis…”

O polícia confere. Realmente eram sete. Realmente na mesa agora só havia seis. Momentos de tensão.

Com tranquilidade, o delegado tranca a porta da sala e volta-se para a jornalistada.

“Galera, negócio é o seguinte. Aqui não tem criança. É todo mundo adulto e todo mundo sabe que eram sete cigarros. Vou mandar vir dois agentes aqui pra revistar todo mundo. Melhor devolver logo a parada. Isso aqui é uma delegacia, rapá!”

Os repórteres se entreolham. Engolem seco. Silêncio. O delegado retoma a palavra:

“Então vamos fazer o seguinte. Eu vou apagar a luz e contar até dez. Se quando eu acender, o baseado não estiver de volta no lugar dele, é baculejo geral”.

Dez segundos pareciam dez horas.

“Oito… Nove… Dez!! Vou acender a luz, viu? Vou acender! Se liguem que eu vou acender!”

Luz acesa, todos os olhares voltam-se para a mesa do delegado.

Surpresa geral. A autoridade deixa escapar um sorriso.

“Ah, então agora são oito…”


Responses

  1. adorei os dois textos,eles sao inteligentes e divertidos!

  2. Essa do delegado é show de bola

  3. Rapaz, essa história dos baseados ficou sensacional. Adorei!


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