Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 28/04/2010

A resposta de Yoani e uma crítica sincera a Cuba

Ganhou muita repercussão a entrevista em que a blogueira cubana Yoani Sanchez é mostrada como uma pessoa contraditória e muito mal informada – ou dissimulada? – sobre a história do seu próprio país, sobre as relações de Cuba com os EUA e o resto do mundo, bem como sobre as inúmeras leis (e ações concretas) do Tio Sam que têm por único objetivo desestabilizar e derrubar o regime cubano.

Tanto aqui no Conexão BSB-MA quanto nos portais onde foi publicada, a entrevista mobilizou comentários, críticas, observações e discussões apaixonadas.

Muita gente – talvez por não conhecerem a deontologia jornalística e, além disso, o estilo da escola européia – criticou o repórter francês, chamando-o de “provocador” ou de “advogado do diabo”.

Jornalisticamente, porém, entrevista é impecável e a insistência do repórter em alguns temas se deu nitidamente para que não pairasse qualquer dúvida sobre as posições e palavras da blogueira.

Para quem quiser saber mais sobre o autor da entrevista: http://www.voltairenet.org/auteur121290.html?lang=pt

Abaixo segue resposta da Yoani Sanchez à entrevista. Coloca-se na defensiva dizendo que teve frases inventadas ou distorcidas, assim como agiu em outras entrevistas que fizeram com ela.

Se o áudio da entrevista for divulgado, ela também dirá que inventaram a sua voz?

Além da resposta da Yoani – que tem todo o direito de ser opositora do regime, de escrever e falar o que quiser a respeito disso, repito – trago um artigo do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, de 2003, com duras e sinceras críticas a Cuba. O artigo foi escrito pouco depois de o escritor português José Saramago afirmar que tinha “perdido a confiança” no regime cubano, após a execução de três dissidentes. À época, Eric Nepomuceno, jornalista, escritor e tradutor de autores como Galeano e Garcia Marquez no Brasil, também escreveu artigo sobre aquele episódio. Fico devendo esse.

Como respondi a várias pessoas, as críticas a eventuais equívocos de  Cuba devem ser feitas e divulgadas amplamente. O que não acho aceitável é uma pessoa se passar por “defensora da liberdade” quando atua claramente a favor de interesses de quem pretende derrubar o governo cubano.

Se comprovada que essa atuação ocorre de forma financiada, isso se chama conspiração e é considerado crime em qualquer país do mundo, inclusive nos EUA. Aliás, na terra do Tio Sam, conspiração dá prisão perpétua ou até pena de morte.

Leia os textos. Agradeço à amiga Juliana Marinho por ter enviado a resposta da Yoani – de quem não retiro uma palavra do que disse, ao contrário, após ler essa “resposta”.

E enfatizo: com a entrevista e essa resposta, não pretendo discutir a situação de Cuba em si, mas a atuação da blogueira premiada em vários lugares do mundo por sua atuação “jornalística”.

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llave_de_paso

No me gusta ir por la vida defendiéndome de ataques, quizás porque me he pasado la mayor parte de ella bajo el fuego cruzado de la crítica. He aprendido que a veces es mejor digerir el insulto y seguir adelante, pues denigrar ensucia más a quien lo hace que a la víctima. Sin embargo, todo tiene un límite. Algo bien distinto es que pongan en mi boca frases que yo no dije, tal y como ha ocurrido con la entrevista publicada por Salim Lamrani en Rebelión. Al comenzar su lectura, no noté mucho la tergiversación, pero ya en la segunda parte me era imposible reconocerme. Es cierto que la introducción trataba de generar aversión en los lectores hacia mi persona, pero  ese es el derecho que tiene cada entrevistador de narrar cómo ve al objeto de sus preguntas.

La gran sorpresa ha sido constatar -en la medida en que avanzaba el texto- enormes omisiones, distorsiones y hasta frases inventadas atribuidas a mí. Todo hubiera quedado en otro intento –entre tantos miles- de adjudicarme posturas que no tengo y afirmaciones que jamás he dicho, si no fuera porque los medios oficiales cubanos se aprestaron rápidamente a hacerse eco de la reacomodada entrevista. Ayer, cuando vi al presentador del más aburrido programa de la televisión oficial referirse –sin mencionar mi nombre- a una serie de preguntas que “me desnudaban”, comencé a comprenderlo todo. La razón para la adulteración ya no era la premura al transcribir ni el deseo de un periodista de probar a toda costa su hipótesis aún distorsionando para ello las palabras del entrevistado. Algo mayor se está fraguando con ese texto semi-apócrifo y hago ahora un alto en el camino de mi blog para advertirlo.

Tengo una memoria muy vívida de aquella tarde de hace casi tres meses –curiosamente el señor Lamrani ha tardado todo este tiempo en hacer pública nuestra conversación- y de las palabras que intercambiamos. Recuerdo sus preguntas estereotipadas y por momentos desinformadas sobre nuestra realidad que muy poco se parecen a estas -tan documentadas- que él ha vuelto a redactar para parecer un especialista. No me caracterizo por responder con monosílabos, de ahí que me cuesta trabajo identificarme entre tanta parquedad. En la medida en que el intercambio que tuvimos en el hotel Plaza avanzaba, se podía notar como la simpatía de él hacia mi posición aumentaba. Al final, sentí que todas las barreras se habían derrumbado y el comprendía que no éramos contrincantes, si acaso personas que veían un mismo fenómeno desde ópticas diferentes. Un abrazo final de su parte me lo confirmó. Pero, evidentemente, pudo más la disciplina a “la causa” que su ética periodística y el profesor de la Sorbonne  terminó –visiblemente en la segunda porción de la entrevista-por adulterar  mi voz. En su modernísimo Iphone mis moderadas frases debieron ser como un virus informático royendo los estereotipos, un llamado a terminar con esa confrontación que personas como él prefieren alimentar.

Yoani Sanchez, em seu blog, 16/04/2010

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Revista Fórum

http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=1094

Cuba dói

Por Eduardo Galeano [Segunda-Feira, 1 de Outubro de 2007 às 14:27hs]

As prisões e os fuzilamentos em Cuba são boas notícias para o superpoder universal, que anda doido por tirar essa espinha teimosa da garganta. Em contrapartida são muito más notícias, notícias tristes e que doem para os que cremos ser admirável a valentia desse país pequeno e tão capaz da grandeza, mas também que a liberdade e a justiça caminham juntas ou não caminham.

Tempo de muito más notícias: se já tínhamos pouco com a pérfida impunidade da carnificina no Iraque, o governo cubano comete esses atos que, como diria Don Carlos Quijano, “pecam contra a esperança”.

Rosa Luxemburgo, que deu a vida pela revolução socialista, discordava de Lenine quanto ao projeto de uma sociedade nova. E escreveu palavras proféticas sobre o que não queria. Foi assassinada na Alemanha há 85 anos, mas continua a ter razão: “A liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros do partido, por muitos que sejam, não é liberdade. A liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente”. E também: “Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e uma liberdade de reunião ilimitadas, sem uma luta de opiniões livres, a vida vegeta e murcha em todas as instituições públicas, e a burocracia torna-se o único elemento ativo”.

O século 20, e o que passou do 21, deram testemunho de uma dupla traição ao socialismo: o claudicar da social-democracia – que culmina hoje com o sargento Tony Blair – e o desastre dos Estados comunistas convertidos em Estados policiais. Muitos desses Estados já se desmoronaram, sem pena nem glória, e os seus burocratas reciclados servem o novo amo com um entusiasmo patético.

A revolução cubana nasceu para ser diferente. Submetida a uma perseguição imperial incessante, sobreviveu como pôde e não como quis. Muito se sacrificou esse povo, valente e generoso, para seguir em pé num mundo cheio de agachados. Mas nesse duro caminho que percorreu em tantos anos, a revolução foi perdendo o vento da espontaneidade e da frescura que a empurrou desde o princípio. Digo-o com dor. Cuba dói.

A má consciência não me enrola a língua para repetir o que já disse, dentro e fora da ilha: não acredito, nunca acreditei, na democracia do partido único (mesmo nos Estados Unidos, onde há um partido único disfarçado em dois), nem creio que a onipotência do Estado seja a resposta à onipotência do mercado.

As extensas condenações à prisão são para mim gols na própria baliza. Elas convertem em mártires da liberdade de expressão uns grupos que manobravam abertamente a partir da casa de James Cason, o representante dos interesses de Bush em Havana. A paixão libertadora de Cason chegou ao ponto de ser ele o fundador do ramo juvenil do Partido Liberal Cubano, com a delicadeza e o pudor que caracterizam o seu chefe.

Ao atuarem como se esses grupos fossem uma ameaça grave, as autoridades cubanas prestaram-lhes homenagem, e ofereceramlhes o prestígio que as palavras ganham quando estão proibidas.

Essa “oposição democrática” não tem nada a ver com as expectativas genuínas dos cubanos honestos. Se a revolução não lhes tivesse feito o favor de reprimi-la, e se houvesse em Cuba plena liberdade de imprensa e opinião, essa presumível dissidência desqualificar- se-ia a si mesma. E receberia o castigo que merece, o castigo da saudade, pela sua notória nostalgia dos tempos coloniais num país que escolheu o caminho da dignidade nacional.

Os Estados Unidos, essa incansável fábrica de ditaduras no mundo, não têm autoridade moral para dar lições de democracia a ninguém. Mas o presidente Bush podia dar lições de pena de morte, já que se proclamou enquanto governador do Texas o campeão do crime de Estado, assinando 152 execuções. Mas as revoluções verdadeiras, as que se fazem desde baixo e desde dentro como se fez a revolução cubana, precisam aprender maus hábitos do inimigo que combatem? A pena de morte não tem justificação, onde quer que se aplique.

Será Cuba a próxima presa na caça de países empreendida pelo presidente Bush? Foi o que anunciou o seu irmão Jeb, governador do estado da Flórida, quando disse: “Agora temos de olhar para a vizinhança”, enquanto a exilada Zoe Valdés pedia aos gritos, na televisão espanhola, “que façam explodir o ditador”. O ministro da Defesa, ou melhor, dos Ataques, Donald Rumsfeld, clarificou: “Por agora, não”. Parece que o perigômetro e o culpômetro, as máquinas que escolhem vítimas no tiro ao boneco universal, apontam mais para a Síria. Quem sabe. Como diz Rumsfeld, por agora.

Acredito no direito sagrado à autodeterminação dos povos, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Posso dizê-lo sem que nenhuma mosca me atormente a consciência, porque também o disse publicamente cada vez que esse direito foi violado em nome do socialismo, com aplausos de um vasto setor da esquerda, como aconteceu, por exemplo, quando os tanques soviéticos entraram em Praga, em 1968, ou quando as tropas soviéticas invadiram o Afeganistão, no final de 1979.

São visíveis, em Cuba, os sinais de decadência de um modelo de poder centralizado, que converte em mérito revolucionário a obediência às ordens que descem das cúpulas.

O bloqueio e outras mil formas de agressão bloqueiam o desenvolvimento de uma democracia à cubana, alimentam a militarização do poder e legitimam a rigidez burocrática. Os fatos demonstram que hoje é mais difícil que nunca abrir uma fortaleza que se foi fechando à medida que foi sendo obrigada a defender-se. Mas também mostram que a abertura democrática é, mais que nunca, imprescindível. A revolução, que foi capaz de sobreviver às fúrias de dez presidentes dos Estados Unidos e de vinte diretores da CIA, precisa dessa energia, uma energia de participação e diversidade, para fazer frente aos tempos duros que aí vêm.

Serão os cubanos, e só os cubanos, sem que ninguém de fora venha interferir, que vão abrir novos espaços democráticos e conquistar as liberdades que faltam, dentro da revolução que eles fizeram e desde as profundezas da sua terra, que é a mais solidária que conheço.

Eduardo Galeano

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Responses

  1. Rogério, muito pertinente o confronto entre a entrevista e a resposta da blogueira. Também já notei outras incongruências e até “mentirinhas” da blogueira, mas não tive a generosidade de dividir no espaço cibernético. A prova que, na luta por um ideal, a verdade (do coração) tem sido sistematicamente assassinada.


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