Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 08/03/2010

Mulheres, estereótipos, preconceitos e liberdade de expressão

*** O blog ficou parado por uns tempos e espero voltar à rotina regular a partir de agora ***

Uma amiga enviou a uma lista da qual faço parte o artigo “Santas e prostitutas”, de João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo no dia 2 de março (link para assinanteslink aberto), a respeito de um comercial de cerveja estrelado pela Paris Hilton.

Aproveito o artigo e a data de hoje para refletir sobre estereótipos, senso comum, preconceitos e liberdade de expressão.

O colunista da Folha, a pretexto de combater o que ele considera um tipo de discriminação (no caso, um ato de censura), nos oferece um texto recheado de argumentos baseados em estereótipos, senso comum e preconceitos…

Apesar de anunciar a contradição (“Não é possível resumir em poucas frases a multiplicidade de argumentos e até de movimentos que marcharam pela causa”), reduziu o movimento feminista (complexo, contraditório e multifacetado, como, ademais, tudo que existe na “sociedade humana”) a chavões simplistas e superficiais:

“Mas, simplificando, o feminismo apresentava-se às massas com o propósito de ‘libertar’ a mulher, o que implicava enterrar os seus papéis clássicos de subjugação falocêntrica.”

Cita uma escritora que é crítica notória do(s) movimento(s) feminista(s) para desenvolver sua tese:

“Para Paglia, o movimento feminista, longe de defender a ‘libertação’ das mulheres, apenas pretendia substituir uma forma de autoritarismo por outra”.

Ou seja, o fato de que um órgão governamental, certamente cobrado por entidades e militantes, apresente queixa ao órgão responsável pela regulação da publicidade (o CONAR, que não é mais do que uma ação entre amigos, mas merece algum crédito) pelo que se considera uma peça desrespeitosa às mulheres (no mínimo, às que reclamaram junto à Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) é sugerido pelo colunista como exemplo de autoritarismo (ele deixa claro isso no último parágrafo, o qual  abordo adiante).

Deveriam a Secretaria, as entidades as militantes se calar diante daquilo que lhes é de direito: reclamar e protestar e pedir providências a quem de direito…?

Ele encerra afirmando que em Brasília o espírito é o mesmo de Teerã, embora não explicite exatamente o seu pensamento a respeito da capital do Irã:

“Para o insulto ser perfeito, só faltava que o governo brasileiro liberasse o comercial sob a condição de Paris Hilton usar burca da cabeça aos pés. Não riam. Brasília está longe de Teerã, sim. Mas o espírito é o mesmo.”

O “espírito de Teerã” seria, a julgar pelas suas idéias expostas no texto, um espírito atrasado, arcaico, ultrapassado, conservador, antidemocrático, autoritário…?

Em caso desta hipótese que levanto (a respeito do pensamento do colunista) ser verdadeira, será que o mesmo afirma tal premissa baseado em conhecimento próprio ou pelo que tem acesso através da mídia?

E, afinal, seria esse também o espírito de Brasília?

Justamente a cidade que, nos últimos meses, ofereceu notáveis exemplos de exercício de cidadania, com milhares de pessoas (estudantes, sobretudo) indo às ruas – enfrentando cavalaria, BOPE, tropa de choque etc. – a exigir a cabeça do governador, do seu vice e de toda a máfia DEMOcraticamente eleita dois anos antes para gerir o Distrito Federal?

Ou ele estaria se referindo apenas ao espírito que conduz os governantes federais da vez?

Curioso que ele diz que “não gosta” do nome da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres… vai ver (divago eu) ele crê que não há necessidade de políticas específicas para mulheres… deveriam até acabar com as delegacias especiais também, afinal, baseado no senso comum que ele tanto preza, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” (como opinou francamente o goleiro Bruno, do Flamengo), não é mesmo?

E, aliás, na lógica dele, não haveria mal algum em se divulgar peças publicitárias de valores nazistas, fascistas, racistas, homofóbicos, sexistas etc… afinal, se a medida do individualismo é a que deve prevalecer, qualquer pessoa tem a “capacidade” para escolher e defender os seus próprios valores, não é mesmo?

Por fim, liberdade de expressão boa é a que defendem os patrões e amigos dos patrões do colunista, que organizaram um grandioso evento sobre o qual destaco dois artigos que denotam muito precisamente o espírito que pairou durante o “I Fórum Democracia e Liberdade de Expressão”, organizado pelo Instituto Millenium:

“A conferência de comunicação particular da direita” (Gilberto Maringoni)

“Liberdade de Expressão e seus 30 novos significados” (Washington Araújo)

E o jornal O Globo, que recusou* o anúncio PAGO de uma peça publicitária de entidades do movimento negro a favor das cotas raciais nas universidades? Será que eles também defendem a liberdade de expressão?

*O jornal da família Marinho, utilizou um sutil método para negar a publicação (aceita nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e A Tarde, de Salvador/BA, ao valor médio de R$ 38 mil): orçou o anúncio em R$ 54 mil e depois elevou o preço para R$ 548 mil, valor superior a uma inserção de 30 segundos em cadeia nacional em horário nobre, na Rede Globo). Confira mais sobre esse episódio no Azenha e no blog do Afirme-se.

PS: Embora todos os dias sejam dias das mulheres, o dia 8 de março deve servir de mote para comemoração das conquistas até aqui, luta pela garantia de mais direitos e lembrança de que nem sempre elas tiveram direitos.

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Responses

  1. Excelente post, pra variar…

  2. Adorei o texto. Escrito de forma muito consciênte e com uma critica autêntica: parabéns…

  3. Amei isso.Bravo.

  4. Ótima reflexão. Impressiona o esforço de alguns para esvaziar o sentido das lutas dos movimentos sociais, fragilizar instituições que na prática e simbolicamente são importantes. Se utilizam de nossos argumentos como democracia e liberdade para se tornarem guardiães da verdade.

  5. Libertaram a mulher
    De uma escravidão
    Mergulharam-na em outra
    A da prostituição
    Sendo escrava do capital
    É mercadoria venal
    Até na televisão.
    Nas bancas de revista
    Anúncios com endereço
    Pagou tirou a roupa
    Depende apenas do preço
    MOderna é mulher sem marido
    POliandria para o preferido
    Eu,mulher de liberdade careço


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