Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 09/02/2010

Carnaval do Recife: diversidade, tradição e participação

*Rogério Tomaz Jr.

O carnaval do Recife é reconhecido pela diversidade de ritmos e gêneros, o que se amplifica se considerarmos a folia de Olinda, cidade vizinha com a qual forma uma conurbação que integra catorze municípios.

Embora ainda fique atrás, em termos de público, na disputa com os carnavais de Salvador e do Rio de Janeiro, a capital pernambucana é a única das três que sintetiza e expressa de forma muito consistente a política cultural da gestão pública local, no caso, adotada e aperfeiçoada há quase uma década.

A matéria-prima cultural é rica e abundante em Pernambuco. Não faltam criatividade, tradição, originalidade e fusão (ou diálogo) das inúmeras manifestações de raiz popular com a indústria pop.

A diversidade do estado é acolhida – e, também, protegida e promovida – na forma de inúmeros projetos de fomento, através de editais que compõem o Sistema de Incentivo à Cultura (SIC).

Aberto tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, o SIC abrange oito grandes áreas: Música; Artes Cênicas; Fotografia, Cinema e Vídeo; Literatura (que inclui o cordel); Artes Gráficas e Artes Plásticas; Artesanato e Folclore; Patrimônio Histórico e Patrimônio Artístico.

Ao contrário do que se pode imaginar, o chamado “Carnaval Multicultural do Recife” integra ações relacionadas a praticamente todas estas áreas, não se restringindo às atrações musicais, embora o predomínio destas seja patente e facilmente compreensível.

Afinal, não é em qualquer lugar ou momento que é possível reunir, com harmonia e integração, tantos estilos musicais diferentes: frevo, mangue, maracatu, afoxé, MPB, samba, pagode, rock, reggae, coco, música eletrônica, rap, brega (Reginaldo Rossi sempre faz shows concorridos) e mais uma ampla gama de artistas cujos trabalhos resultam de fusões ou “diálogos” entre vários estilos.

Para acomodar tanta diversidade, a organização da festa se encaixa perfeitamente no espírito da cultura popular: horizontal, participativa e aberta à criatividade e ao improviso. Assim como nos estados do Nordeste em geral, a essas características soma-se a forte irreverência, que costuma servir de forma de expressão libertária, que se faz presente no cotidiano, mas ganha intensidade no período momesco.

Maracatus de baque virado e rurais, caboclinhos, bandas de pau e corda, blocos líricos, orquestras, “troças”, músicos locais e nacionais consagrados e em busca de reconhecimento, convidados internacionais, artistas plásticos, DJs de música eletrônica, estilistas, repentistas, rabequeiros, entre muitos outros tipos fazem a alegria durante as cinco noites do carnaval do Recife.

Nem sempre foi assim. Há pouco mais de dez anos, o manguebeat já era conhecido no exterior e tinha um público local fiel, mas os ritmos tradicionais que inspiraram os caranguejos com cérebro – notadamente o maracatu e outras manifestações que se desenvolviam fora do ambiente cosmopolitano do Recife – lutavam muito para conquistar seu quinhão de visibilidade e respeito.

A incorporação – com pompa e destaque – dos grupos da Zona da Mata, do Agreste e do Sertão, ocorrida na última década, contribuiu para transformar o carnaval recifense no fervilhante caldeirão que poderia ser concorrer ao título de maior festival de cultura popular do mundo.

Em números: 700 mil pessoas esperadas pela Secretaria Municipal de Turismo que deverão movimentar algo em torno de R$ 400 milhões, numa festa de duas semanas – incluindo a semana pré-carnavalesca – que mobilizará 340 atrações, 495 agremiações e milhares de músicos e artistas divididos entre os 59 pólos espalhados pela capital pernambucana. Vale frisar: sem considerar Olinda e as demais cidades da região metropolitana, onde a diversão também será grande.

Da abertura, na sexta-feira (12), comandada pelo percussionista nativo mundialmente aclamado, Naná Vasconcelos, regendo 700 batuqueiros de maracatu, até a apoteose de encerramento, na madrugada da “quarta-feira ingrata” (17), Recife funcionará ao ritmo das alfaias, tambores, violas, guitarras, rabecas, instrumentos de sopro e muitas outras máquinas, ao lado de vozes e passos do frevo e de todos os ritmos que reivindicam a Pernambuco a alcunha de “coração do folclore nordestino”.

Tudo isso sem cordão de isolamento ou abadás, diga-se de passagem.

*Rogério Tomaz Jr.
Jornalista cearense, criado no Maranhão, filho de baiano, residente em Brasília e apaixonado por Pernambuco.

Em tempo: publico este artigo aqui no blog poucas horas antes de partir da carro para a “Veneza Brasileira”. Fiz essa mesma viagem em 2008 e o roteiro (além do prazer de cruzar as estradas desse imenso e lindo Brasil, adquirido com as tantas viagens com meu pai) compensa o esforço: Chapada Diamantina, Feira de Santana (onde tenho parentes), Aracaju, Maceió, muitas praias e lugares lindos (como Penedo, foz do Velho Chico). E na volta ainda passo em Salvador, pra rever amigos/as e familiares queridos/as.

Em tempo2: Fico devendo um outro artigo, sobre o que me faz ir, de verdade, para Recife todos os anos (este será o quarto seguido e o sétimo no total): a possibilidade de rever e encontrar (ao acaso) tantas pessoas queridas que a vida me presenteou e ainda conhecer outras tantas. Afinal, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, como já disse um certo Vinícius. O artigo fica pra depois.

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Responses

  1. Boa viagem Rogério! Esse ano estarei no Rio, mas com pensamento e ouvidos voltados para o melhor carnaval do mundo!!! Salve Recife! Bjs, Ju

  2. Já tenho muita vontade de conhecer Recife só pelos relatos de pessoas que são ou já passaram por lá e lendo esse artigo fiquei até com água na boca, um desejo muito grande de conhecer esse paraíso, mas um dia eu conheço.
    Só tenho a desejar que vc aproveite bem e na volta escreva o motivo de tantas idas sucessivas. Já imagino, deve ser o amor. rsrsrs…

  3. é isso aí, Rogério! em gênero, número e grau superlativo.

    incluo na sua resenha Nazaré da Mata e seu forte e farto maracatu rural.

    naquele estado há, mais que folclore, cultura viva, que agrega em clima de irmandade uma população que se alegra seja no interior ou na capital, que foi considerada por alguns a quarta pior cidade do mundo. uma resposta cultural à opressão dos coronéis e corporações, uma questão de ponto de vista.

    daqui, de partida pra roça, pro meidomato, o que a meu ver é a melhor alternativa no carnaval, quando não se vai a Pernambuco.

  4. eu imagino, mas kd?

  5. Bem vindo de volta!

  6. poxa queria tanto poder conhecer as maravilhas de pernambuco

  7. […] João da Costa, também petista, pela continuidade do projeto. Falei mais sobre isso no artigo Carnaval do Recife: diversidade, tradição e participação. Share this:TwitterGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso […]


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