Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 15/10/2009

Sobre motosserras, metamorfoses, comunistas e ruralistas

Segue artigo do jornalista, radialista, militante e musicólogo – essa é por minha conta –  Dioclécio Luz, acerca de (mais) uma bizarrice comandada pelos ruralistas do Congresso Nacional.

Embora eu tenha algumas divergências pontuais (e outras mais amplas) com o texto, ele traz uma reflexão importante, sobretudo para quem acredita na importância estratégica do debate (e das políticas e legislações) sobre o meio ambiente*.

A melhor definição para o que esse processo aponta foi dada pelo ex-deputado e atual vereador da minha querida Fortaleza(CE), João Alfredo Telles (PSol):

“Esse é o verdadeiro massacre da serra elétrica”. Ou, pelo menos, a versão legislativa dele.

Sobre os ruralistas, que são, de longe, o setor culturalmente mais atrasado da nossa sociedade – são a expressão viva e apenas “mudernizada” dos senhores da  Casa Grande -, falo qualquer dia, mas recomendo a leitura diária do blog do Leonardo Sakamoto: http://blogdosakamoto.uol.com.br

Vale dizer que passei ontem (quarta) pelo episódio descrito e analisado pelo Dioclécio e me assustei. Poucas vezes vi tantos deputados ruralistas reunidos fora da Comissão de Agricultura. Enquanto o deputado Ivan Valente (PSol-SP) — um dos poucos resistentes aos tratores ruralistas — falava, era chamado de “ecochato” pelo deputado Waldemir Moka (PMDB-MS). Segue pequeno registro.

ruralistas

Leia o artigo, com o título original, feito a pedido deste Conexão Brasília Maranhão.

Sobre metamorfoses, comunistas e ruralistas

Dioclécio Luz

As pessoas não se acostumam com as mudanças dos políticos. E por isso se incomodam quando um partido ou um político muda de idéia – descartando o que defendia antes e adotando o que lhe é interessante hoje. Mudar de pele conforme o meio ambiente, o dinheiro em jogo, ou o poder em vista, é normal na política. Por isso é inútil a lamentação. A política tem uma ética e uma moral particular; é bobagem querer coerência na política se a regra do jogo político inclui a metamorfose, incluindo a metamorfose ideológica.

Um bom exemplo dessa capacidade de mutação está acontecendo agora, na Câmara dos Deputados, com a criação da comissão especial para analisar e propor mudanças no Código Florestal. O Código em vigor, na opinião dos ruralistas, atrapalha os negócios e a expansão dos negócios deles. É claro que tais negócios estão acabando com a Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pampas gaúchos, Mata Atlântica, Pantanal… Mas isso não conta. Se o mundo se acabar (torrado e moído), acreditam, eles compram outro.

Hoje, 14/10, tomou posse na presidência dessa comissão o deputado Moacir Micheletto (PMDB-PR), ruralista convicto, dono de terras. Com ele estão no comando da comissão os deputados Anselmo de Jesus (PT-RO), Homero Pereira (PPS-MT) e Nilson Pinto (PSDB-PA). O relator é o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

Para quem não é da área, para quem não lida com jogos, um alerta: não se espante com o fato de um deputado-fazendeiro presidir comissão que vai mexer num conjunto de normas de defesa do meio ambiente. Isto é, mexer em normas que defendem o ambiente de ações de fazendeiros como Micheletto. Isso é normal no Congresso. Deputados e senadores costumam atuar em causa própria – em todas as comissões. Por exemplo, a Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação,  e Informática está infestada de parlamentares donos de rádio e televisão. Parlamentar ter rádio e TV já não é muito decente – a Constituição proíbe – imagine quando ele relata projetos de seu interesse…

No caso da comissão que vai cuidar da reforma do Código Florestal, constata-se a presença de um rebanho de fazendeiros, pecuaristas, agricultores. São os representantes do setor criando normas para o seu setor. Isso não é o pior. O pior são as metamorfoses que ocorrem paralelamente para garantir o poder, no caso, dos inventores da motosserra.

Um enxame de partidos e políticos aderiram à causa. Porque na política é assim mesmo, “eu garanto o poder para eles e eles me garantem o poder”. Sem constrangimento. Alguém cede um pedaço do poder e, em troca, recebe um pedaço do poder. É negócio, barganha. E barganhar ideologia também é negócio. O objetivo, porém, não deve se perder de vista, é o poder. Claro que o poder traz fama, sucesso, mulheres, dinheiro, e uma penca de bajuladores – coisas que alguns adoram, e por isso estão na política. Em busca do poder estes políticos trocam de pele – quem era azul fica vermelho, quem era vermelho adquire as cores da bandeira do poder – e adotam a cor da moda.

Já que se fala em atitudes camaleônicas é o caso de citar o Partido dos Trabalhadores. Nos idos de 1540, logo depois que Maquiavel redigiu “O príncipe” e a Igreja Católica começou a se dividir para chegar ao poder (esquerda, direita, centro, qualquer coisa), o PT estabeleceu uma proposta diferente de partido, seria ético e em defesa da classe trabalhadora. Essa “longa história de luta”, como gostam de falar os petistas, teve duas mortes sabidas: a primeira, quando Lula tomou posse; a segunda, quando vieram Delúbio, as ambulâncias, Zé Dirceu, Genoíno, Pimenta, e um monte de alpinistas e acrobatas do partido dispostos a provar que o PT era igual a todos os outros partidos.

Pois bem, voltando à comissão do Código Florestal, a questão primeira é: por que o PT entregou a presidência dessa comissão para os ruralistas? A resposta é simples: para ter e se manter no poder. Não importa se a devastação vai aumentar, se o aquecimento global vai torrar essa terra, se vai faltar comida, emprego e trabalho no campo. O PT foi pragmático: para ter mais poder (e glória e fama e mulheres e dinheiro e bajulação) entregou a rapadura para os consumidores de motosserra. O acordo entre partidos, parte do jogo pelo poder (que inclui sempre eleições para alguma coisa), permitiu essa decisão. Sim, o PMDB – ruralista ou não – é aliado do PT. E quando se trata de poder – objetivo maior da política –, salvo uns poucos rebeldes, ruralistas e petistas são uns e outros cuspidos e escarrados.

Tem gente que ainda se espanta com isso. Mas isso, essa coisa asquerosa da política, essa onda de alianças que vai da lama ao céu, é prática normal. Por que Lula saiu em defesa de Sarney quando ele foi mexido pela imprensa? Ora, porque Sarney é aliado do Governo. Lula fez isso como outros fizeram no passado, independente do estigma (estigma?) ideológico.

A união entre petistas e ruralistas não é recente. Quando da votação do projeto de Lei da Biossegurança aconteceu o mesmo. Vale lembrar que até 2003, nessa história dos transgênicos o PT tinha posição bem definida – todas as suas propostas eram contra os OGMs. Mas aí, sabe como é?, virou poder, e, para garantir o poder, deu início a um casamento com os ruralistas. Nesse processo de metamorfose a Casa Grande abriu as portas para a senzala e os da senzala ficaram felizes com isso.  Problema em comer as sobras do banquete? De jeito nenhum, os dois – burgueses e cativos – pretendem ser felizes para sempre.

Foi nessa questão dos transgênicos que apareceram os comunistas. Mais exatamente, um comunista. O deputado Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), mostrou que é possível mudar de pele a tal ponto que consegue defender as idéias burguesas mais radicais. Ruralistas e comunistas unidos? Sem problema. Aldo fez isso em 2004, quando foi indicado pelo governo (petista?) para elaborar relatório sobre os transgênicos, agradável aos amigos ruralistas. O relatório saiu como os ruralistas queriam. Mais que isso, Aldo chegou a escrever artigos em defesa dos transgênicos usando as mesmas frases dos ruralistas. Como prêmio Aldo recebeu o apoio dos senhores da Casa Grande para se eleger presidente da Câmara. Mas porque se fala de Aldo Rebelo aqui? Porque mais uma vez o comunista, ou neo-comunista, ou comunista-neo-liberal, foi chamado para defender os interesses dos ruralistas. Ele será o relator da comissão especial do Código florestal. Foi indicado pelo governo (petista?) e pelos ruralistas. Claro, já tinha currículo para função, tinha serviços prestados à turma da Casa Grande. O comunista aliado dos ruralistas tem uma posição tão conhecida e subserviente que, durante a posse, alguém sugeriu que ele já apresentasse o relatório (que iria receber dos ruralistas), ali mesmo, e já se fizesse a votação. A idéia não vingou. Ainda bem, e se a sociedade percebesse que essa comissão é parte de um jogo cujo resultado é sabido desde o carnaval de 1930?

Diante deste quadro, dois cenários são possíveis. O primeiro deles é que Aldo Rebelo e sua turma apresentem um relatório pior do que é esperado e lá vão os ambientalistas brigarem pelo “menos ruim”, a proposta de antes; isto é, brigar pelo horrível ou pelo péssimo. É o que pode acontecer a médio prazo.

A longo prazo a sugestão é colocar uma placa na lua dizendo assim: “visite a terra, antes que acabe”. Mas não há porque ser pessimista. Se eles aprovam o relatório, parto transgênico de comunistas, ruralistas e petistas, ainda dá tempo de visitar a Amazônia. Até janeiro do próximo ano ainda tem muita coisa para se ver.

*****

*Observação minha (Rogério): Não existe a menor possibilidade de eu votar na Marina para presidente. Entre outras coisas, porque acho que ela está cumprindo um papel lamentável de quinta coluna para a direitona, comandada pela turma do F(MI)HC, (tentar) voltar ao poder. Por toda a sua história, lamento muito que ela tenha embarcado nessa canoa.

Anúncios

Responses

  1. Por que Lula saiu em defesa de Sarney quando ele foi mexido pela imprensa? – pergunta o Dioclécio.

    Falta perguntar: pq a imprensa de repente resolveu, não mexer, mas exterminar o Sarney? Pq não fez isso qd Sarney era base do FHC?

    Pq o PSOL representou contra o Sarney e nao contra o Jereissati e o Artur Virgilio?

    E, nesse contexto, o Lula devia ter dito: Ah, sim, mas ajudar a matar o Sarney e eleger o Serra?

    Política é assim? Um jardim da infância comandado por instrutores midiáticos?

    Por que o Renan Calheiros prestava qd era ministro da Justiça do FHC e agora, com Lula, é “símbolo da corrupção”?

    Qt. à questão do Código Florestal, de fato há graves ameaças no ar. Que devem ser enfrentadas politicamente e não apenas com algumas estrofes do hino nacional ou do hino às baleias.

    Política é essa merda mesmo: comunistas de meia tijela, esquemas de esquerda e de direita, ambientalistas malucos, ruralistas ferozes… Jornalistas tem que contar o que está acontecendo,l mas sem se deixar levar por ondas midiáticas artificiais. É do Senado foi típica.

    Alguém se lembra do Pedro Simon interrogando Duda Mendonça na CPI do Mensalão? Parecia que entrevistava o maior cientista político do país. Com toda consideração e respeito… Pudera: Duda fez a campanha dele no RS. Sem caixa 2, naturalmente.

  2. Ah, sim, essa tijela com J saiu sem querer. Podem quebrar.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: