Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 14/10/2009

Os novos negros – Bicharlyson

Achei no Vi O Mundo o artigo do Leandro Fortes, repórter da Carta Capital que mantém o blog Brasília Eu Vi.

Vale lembrar que, além da homofobia, persiste nos estádios e no universo do futebol (e de outros esportes, em geral) o machismo.

Talvez seja até mais longo e tortuoso do que a luta (ainda em curso) pelo fim do racismo – que alguns hipócritas ou ingênuos gostam de desqualificar como “ditadura do politicamente correto” – o caminho para a superação da homofobia e do machismo. Mas a trilha já foi iniciada e não tem mais volta.

Leia o artigo. E divulgue. A informação é a primeira arma contra o preconceito.

Posted by Leandro Fortes under Homofobia & racismo
Bicharlyson! Bicharlyson!

"Bicharlyson! Bicharlyson!"

Não faz muito tempo, o mundo – e o Brasil, em particular –, se escandalizou com as manifestações racistas contra jogadores de futebol que foram hostilizados por torcedores nos estádios europeus apenas porque eram negros. Na Itália e na Espanha, diversos jogadores negros, inclusive brasileiros, foram chamados de “macacos”, “gorilas” e “pretos de merda” por torcidas organizadas dos maiores times daqueles países. As reações foram, felizmente, imediatas. Intelectuais, jornalistas, políticos e autoridades esportivas de todo o planeta botaram a boca no trombone e reduziram, como era de se esperar, gente assim ao nível de delinqüentes comuns. Ainda há, eventualmente, exaltações racistas nos gramados, mas há um consenso razoavelmente arraigado sobre esse tipo de atitude, tornada, universalmente, inaceitável. Você não irá ver, por exemplo, no Maracanã, torcidas inteiras – homens, mulheres e crianças – gritando “crioulo safado” para o artilheiro Adriano, do Flamengo, por conta de alguma mancada do Imperador. Com a PM circulando, nem racistas emperdenidos se arriscam a tanto.

Mas, ai de Adriano, se ele fosse gay.

No sábado passado, espremido no Maracanã ao lado de meu filho mais velho e outras 57 mil pessoas, fui ver um jogaço, Flamengo 2 x 1 São Paulo, de virada, um espetáculo de futebol. Quando o time do São Paulo entrou em campo, as torcidas organizadas do Flamengo, além de milhares de outros torcedores avulsos, entoaram, a todo pulmão: “Veados, veados, veados!”. Daí, o painel eletrônico passou a anunciar, com a ajuda do sistema de autofalantes, a escalação são-paulina, recebida com as tradicionais vaias da torcida da casa, até aí, nada demais. Mas o Maraca veio abaixo quando o nome do volante Richarlyson foi anunciado: “Bicha, bicha, bicha!”. E, em seguida: “Bicharlyson, bicharlyson!”. Ao longo da partida, bastava que o são-paulino tocasse na bola para receber uma saraivada de insultos semelhantes. No ápice da histeria homofóbica, a Raça Rubro Negra, maior e mais importante torcida do Rio, e uma das maiores do Brasil, convocou o estádio a entoar uma quadrinha supostamente engraçada. Era assim:

“O time do São Paulo/só tem veado/o Dagoberto/come o Richarlyson”.

Richarlyson virou alvo da homofobia esportiva brasileira, com indisfarçável conivência de cronistas esportivos, jornalistas e colegas de vestiário, a partir de 2005, quando fez uma espécie de “dança da bundinha” ao comemorar um gol do São Paulo, time que por ser oriundo do elitista bairro do Morumbi acabou estigmatizado como reduto homossexual, ou time dos “bambis”, como resumem as torcidas adversárias. A imprensa chegou a anunciar o dia em que Richarlyson iria assumir sua homossexualidade, provavelmente numa entrada ao vivo, no programa Fantástico, da TV Globo – o que, diga-se de passagem, nunca aconteceu. Desde então, no entanto, o volante nunca mais teve paz. No Maracanã lotado, qualquer lance que o envolvesse era, imediatamente, louvado por um coro uníssono e ensurdecedor de “veado, veado, veado!”. Homens, mulheres e crianças. O atacante Dagoberto entrou de gaiato nessa história apenas porque, com Richarlyson, forma uma eficiente dupla de ataque no São Paulo.

Agora, imaginem se, no Morumbi, a torcida do São Paulo saudasse o atacante Adriano, do Flamengo, aos berros de “macaco, macaco, macaco!”, apenas para ficarmos nas analogias retiradas do mundo animal. Ou, simplesmente, entoasse uma quadrinha do tipo criada para a dupla Dagoberto/Richarlyson, dizendo que no Flamengo só tem crioulo, que Adriano enraba, sei lá, o Petkovic. O mundo iria cair, e com razão, porque chegamos a um estágio civilizatório onde o racismo tornou-se motivo de repulsa, mesmo em suas nuances tão brasileiras, escondidas em piadas de salão e ódios de cor mal disfarçados no elevador social. Usa-se, no caso dos gays, o mesmo mecanismo perverso que perdurou na sociedade brasileira escravagista e pós-escravagista com o qual foi possível transformar em insulto uma condição humana que deveria, no fim das contas, ser tão somente aceita e respeitada. Assim, torcedores brasileiros chamam de veados os são-paulinos em campo como, não faz muito tempo, nos chamavam, os argentinos, de “macaquitos”, em pleno Monumental de Nuñes, em Buenos Aires, para revolta da nação.

Quando – e se – a lei que criminaliza a homofobia no Brasil, a exemplo do racismo, for aprovada no Congresso Nacional, será preciso educar gerações inteiras de brasileiros a respeitar a sexualidade alheia. Espero, a tempo de recebermos os atletas que virão às Olimpíadas de 2016, no Rio, provavelmente, no mesmo Maracanã que hoje se compraz em xingar Richarlyson de veado. Por enquanto, a discussão sobre a lei está parada, no Brasil, porque o lobby das bancadas religiosas teme abrir mão de um filão explorado por fanáticos imbuídos da missão de “curar” homossexuais, ou de outros, para quem os gays são uma aberração bíblica passível, portanto, da ira de deus.

Nos jornais de domingo, nem uma mísera linha sobre o assunto. Das duas uma: ou é fato banal e corriqueiro, logo, tornado invisível aos olhos das dezenas de repórteres enfiados na tribuna da imprensa do Maracanã; ou é conivência mesmo.

*****

Apesar de desatualizado, vale a pena conhecer o site: http://www.racismonofutebol.org.br/


Responses

  1. Ao ler o título do e-mail do Rogério achei que era mais um daqueles inúmeros e-mails piadistas com a orientação sexual do Richarlyson. Mas tive uma agradabílissima surpresa ao ler um texto tão coerente e que me explicita a forma cruel de como os LGBT´s são tratados em nosso país. Apesar de todos os avanços e esforços do governo em conter a homofobia, ainda é muito pouco. É preciso aprovar o PL 122 que criminaliza a homofobia já!

    Parabéns pelo texto Leandro.

  2. Oi, Pêda!
    E você ainda tem coragem de dizer que eu não leio seu blog!!! Muito bom o texto. Escancarou a questão…e não é porque sou são paulina…hihihi
    Beijos!
    PS. Vou responder seu email sobre o Eric!

  3. Esse texto é ótimo. Assim que saiu, um twitter ateísta [o @bulevoador] divulgou e eu repassei na comu do orkut São Paulo FC – Tricolor [http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=22977&tid=5392171005919848705&na=1&nst=1].
    Sem dúvida, muito bom. Também não deixa de ser triste o fato de que, ao contrário dos demais jogadores do time, o Richarlysson é raramente saudado pelas torcidas são-paulinas.
    Claro que, embora seja o caso de mais repercussão, é um tipo de preconceito que se manifesta em tudo que é lugar. O ‘interessante’ é que não é exatamente homofobia, porque não se tata de discriminar quem É homossexual. Basta PARECER. O Rob Halford é assumidíssimo, mas ninguém chama o Judas Priest de “banda de veado” – porque o Rob não é efeminado.
    É muito mais um sexismo, no sentido de conformar todos os homens a um padrão supostamente universal de masculinidade. E é uma discussão que vai loooonge (como minhas experiências usando kilt comprovam). Enquanto as mulheres há décadas enfrentaram os padrões impostos a elas pela sociedade, os homens continuam de cabeça baixa.
    O masculismo devia estar bem forte. Não está. Os homens que deveriam levar esse debate à frente, notadamente os de esquerda, se acovardam diante das pseudofeministas que querem monopolizar a discussão de gênero (mas não critico as feministas sérias, que sabem que discussão de opressão não é Fla x Flu). Trata-se de redefinir o papel de cada gênero (talvez até acabar com isso).
    O autor define bem quem xingou o Richarlsson: “Homens, mulheres e crianças”. Aì é que está. Todo mundo reforça, todo mundo alimenta o sistema repressor.
    Fazendo um paralelo como o título do artigo, talvez um dia o Richarlysson seja lembrado como a Rosa Parks é.

  4. Fala Rogério,
    eu tava neste jogo (como todos os jogos do Mais Querido do Brasil) e fiquei envergonhado. A torcida do Flamengo já canta esta música pro Richarlyson há alguns anos (antes, o “acompanhante” era o Aloísio). Contudo, como o Danilo destaca bem, a acusação não pode ser direcionada a uma só torcida, porque as próprias torcidas organizadas do São Paulo renegam o jogador.
    As recentes declarações homofóbicas do Hélio dos Anjos tiveram repercussão, mas não todas as que mereciam. Este é um tabu que ainda precisa ser enfrentado.

  5. Rogério e Leandro,

    O texto é interessante, muito pertinente, mas vale uma ressalva. É complicado mensurar racismo e homofobia, sob pena de criar uma falsa impressão de que um dos problemas está resolvido, no caso o racismo no futebol. Até que ponto o fato do Richarlyson ser negro não acirra os ânimos homofóbicos da torcida, por exemplo? Se ele fosse branco, o coro seria no mesmo tom? Duvido. O debate sobre homofobia e racismo, dentro ou fora dos campos, deve ser feito levando em conta essa dimensão. Em geral, uma violação de direito está associada a várias outras. E os movimentos negr@s e LGBTT têm o desafio de pautar, de maneira conjunta, essa discussão com vistas à Copa do Mundo, no Brasil.

    abs,
    Juliana Cézar Nunes
    Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
    (Cojira-DF)

  6. Me desculpe, Juliana, mas eu discordo. Acho que nesse caso não há NADA de racismo. A questão é a que eu falei: enquadramento ou não no padrão que a sociedade impõe ao sexo masculino. E isso exige que a discussão de opressões deixe de ser feita com base no FlaxFlu que haja atualmente e assuma sua complexidade.
    As inúmeras piadas sobre a sexualidade do Beckham mostram que nem heterossexuais casados escapam… Afinal, ele cuida da aparência, se preocupa com moda, chega até a vestir sarongue — coisas que permanecem vedadas para a maioria dos homens, não importa de que cor sejam.

    Concordo que o racismo no futebol (e no esporte e na sociedade) está longe de ser um problema resolvido. Só acho que devemos atacá-lo onde ele realmente exista.

    Só completando tua ideia: essa discussão deve ser pautada por TODOS os grupos que lidam com a questão étnica e racial, não apenas os movimentos negros (afinal, é igualdade que queremos, espera-se). Só assim podemos promover uma relação saudável entre todos e evitar cenas absolutamente lastimáveis, como a final do handebol masculino entre Brasil e Argentina no Pan de 2007.


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