Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 08/10/2009

Sobre o futebol cearense em 2009 e a arte de apanhar coco

Texto que publiquei no Impedimento, melhor blog de futebol do país do futebol.

Sugestão: vale a pena ler os comentários dos textos do Impedimento. Tem de tudo. De genialidade a bestialidade, passando pelo humor ácido e pelo sarcasmo arguto.

Sobre o futebol cearense em 2009 e a arte de apanhar coco

06/10/2009

Fortaleza_MJ

Desde que era chamado de CUJU na China da Dinastia Han, a segunda maior alegria do futebol, depois de vibrar com os triunfos do próprio time, sempre foi zombar o rival.

Na minha tenra infância no glorioso bairro do Montese, aprazível e multicultural recanto da capital alencarina, quando eu já estava deveras acostumado a ir ao Gigante da Boa Vista – também conhecido como Castelão – ver o Vozão do Coração do Meu Povão* espancar o Stella, nada se comparava em termos de ansiedade às segundas-feiras após algum Clássico-Rei.

Quando o Ceará era vitorioso – naquela época, algo quase óbvio – eu fazia questão de levar a bandeirola alvinegra no ombro e a camisa por baixo da farda (não falamos uniforme escolar, é farda mesmo).

Como sofriam os tricolores que apareciam. Sim, o normal era inventar doença para ficar em casa e não ter que encarar as piadas perversas e cruéis. Quando a TACA era feia (uma virada ou diferença a partir de três gols), era caso de cama a semana inteira.

Não havia escapatória, no entanto. A turma sempre fazia questão de passar na frente da casa dos, digamos, ausentes temerosos, e MANGAR a plenos pulmões até a mãe ou a secretária do lar expulsar os provocadores:

– Chooooora carniça! Chooooora buchada**!

No presente, gozando a Idade de Cristo e contando os fios brancos que começam a pulular na cabeleira outrora esvoaçante, não exercito mais – pelo menos não nesse nível de vileza – a prática de atazanar a paciência alheia.

Mas o ano de 2009 está sendo pródigo demais para eu não registrar uma saudação ao Stella.

Já conhecido como o maior time “apanhador de coco” – sobe, apanha e desce, sobe, apanha e desce… – do futebol brasileiro e, provavelmente, mundial, o Stella nessa temporada, tal qual o Fluminense (meu segundo time de coração**), está colocando todas as suas forças para reparar um erro histórico.

Vice-lanterna da Série B em 1994, LAMBUJOU na Série C por cinco anos consecutivos, até ser alçado à Segunda Divisão em 2000, mesmo tendo obtido um indecoroso 21º lugar na Terceirona do ano anterior. Quem teria sido a alma caridosa e quanto teria custado o préstimo?

Em 2009, o Tricolor de (palha de) Aço quer retornar à Série C para (tentar) retornar pelas vias normais, com os resultados conquistados em campo, a estágios menos infames. “O Fortaleza deve à sua torcida o título da Série C”, teria dito um ilustre torcedor não identificado.

Tal qual o Fluminense deve o título da Segundona à sua torcida, o que o permitirá tornar-se o único time do mundo a ter um título nacional nas três divisões do futebol profissional do seu país.

Como se já fosse pouco, para desgosto agudo dos entusiastas do Stella, mais do que regozijar-se pela iminente queda do rival, a maior torcida do estado de José de Alencar, Falcão e Ednardo está vibrando com a belíssima campanha do Vovô, comandado pelo intrépido PC Gusmão.

Sábado passado ocorreu o oitavo Clássico-Rei do ano. Vitória do Vozão (quarta em 2009, contra três empates e uma derrota).

Tirando algumas poucas ASSUNGADAS mais firmes, o jogo foi leal e bem disputado nos dois extremos da cancha. O avante Mota, envergando a camisa 95 (idade do clube), marcou o gol solitário da REFREGA e deixou o zero do placar eletrônico para o desesperado Stella, que hoje ocupa a 18ª posição do Brasileirinho, restando apenas dez rodadas para o fim do certame. Mesmo com a vantagem, o Alvinegro foi pra cima e deixou o Leão com FOGO NAS COIVARAS. Não fizemos mais por respeito ao moribundo.

No estádio, o que mais se viu foi a imagem do finado Rei do Pop vestindo a camisa tricolor, com a legenda óvia: “Só falta enterrar”. Já a torcida do Stella exibia um cartaz com o Sumo Pontífice recebendo a camisa tricolor. Diz-se que Bento XVI ficou na dúvida ser deveria benzer a camisa para inspirar algum milagre que salve o time da degola ou se estavam lhe pedindo a Extrema Unção.

papa_fortaleza2

O Ceará, que não joga o Brasileirão desde 1993 (21º entre 32 clubes), mas nunca passou pelo martírio da Série C, aparece em quarto na tabela, empatado em pontos com o terceiro, Atlético Goianiense, e apenas três pontos atrás do Guarani, vice-líder. Apenas o Vasco perdeu menos (quatro derrotas, contra seis do Vozão). E o Alvinegro de Porangabussu OSTENTA o segundo melhor saldo de gols do torneio, também superado apenas pelo time da Colina.

Crianças, fiquem atentas. Confirmado o ascenso, haverá carreata (e, possivelmente, jegueata) em várias cidades do Brasil. A massa alvinegra vai BOTAR BUNECO de norte a sul e de leste a oeste do país e no “estrangeiro” também!

Em tempo: o Ceará Sporting Club possui hoje 12 mil sócios-torcedores, com direito a ingresso para todos os jogos. A meta é alcançar 20 mil em 2010. Apenas nove clubes brasileiros possuem mais filiados nessa categoria.

E fica o recado: chegando à Série A, não será apanhador de coco.

Colaboração de Rogério Tomaz Jr., jornalista nascido no Ceará, criado no Maranhão, com sangue baiano e coração pernambucano. Sua paixão futebolística é assumidamente maior do que a clubística, mas torce de coração pelo Ceará e pelo Fluminense, além de ser devoto de Bahia e Sport.

*Expressão consagrada por Gomes Farias, folclórico locutor (ainda na ativa) que inspirou o humorista Tom Cavalcante (alvinegro fervoroso) na criação da personagem João Canabrava.

**No Clássico-Rei, quando algum time sai na frente, a torcida entoa o grito: “Buchada! Buchada!” para desprezar o rival. Certa vez, um primo meu, na sua primeira vez no Castelão, viu a massa alvinegra puxando o grito e perguntou se “Buxada” era o artilheiro do Ceará.

***É bastante comum no Nordeste – exceto em Salvador e Recife – torcermos para um time local e cultivarmos uma simpatia, maior ou menor, por um time do Rio de Janeiro, graças à influência que as emissoras de rádio (Nacional e Globo, sobretudo) exerciam nas décadas de 60, 70 e 80.

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