Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 01/10/2009

Micheletti escancara a verdade: “Depusemos Zelaya por seu esquerdismo”

O protofascista Bóris Casoy, para justificar o golpe, disse ontem (30/9), no Jornal da Noite, na Band, que não há santos no conflito em Honduras.

É o pensamento binário, tão bem definido por Shakespeare: ser ou não ser. Bandidos e mocinhos, certos e errados, bonitos ou feios. É assim que funciona o jornalismo do PIG (Partido da Imprensa Golpista), quando lhe convém, obviamente.

Charge do Latuff

Bóris afirmou que Zelaya “rasgou a constituição”, num mantra repetido de outras formas por Reinaldos Azevedos e congêneres. Só não dizem à população que a consulta pública sobre a necessidade de nova se reformar a Constituição de Honduras – se a proposta de introduzir a possibilidade de reeleição iria entrar, são “outros quinhentos” – estava marcada para o mesmo dia da eleição de novembro. Logo, Zelaya não poderia se candidatar à reeleição.

Mais: Casoy, Ali Kamel, Reinaldo (que não entende nem de matemática básica, mas se acha expert político) et caterva também não tratam muito do fato de Zelaya ter sido expulso à força (de pijama) do país. Ilegalidade e arbitrariedade que violou a Constituição de Honduras, ao contrário da mera suposição da pretensão de alterar uma cláusula pétrea da Constituição (no caso, a impossibilidade de reeleição).

Veja o que dizia a cédula que seria usada na consulta popular:

¿Está de acuerdo que en las elecciones generales de 2009 se instale una cuarta urna en la cual el pueblo decida la convocatoria a una asamblea nacional constituyente? Si / No

Onde se fala em reeleição? Qual o crime seria cometido com essa consulta popular? A desaprovação do Judiciário e da Suprema Corte foi um ato político – legítimo, mas político – que apenas dava início ao golpe.

O Estadão foi mais sincero – aliás, há bastante tempo tem sido o mais honesto veículo do PIG nos últimos anos, no sentido de apresentar com franqueza suas posições – no assunto:

“a comunidade interamericana não poderia, a esta altura da história do Hemisfério, resignar-se à violação consumada da Carta Democrática adotada em 2001 pela OEA. A entidade foi coerente com os seus princípios ao condenar de imediato, sem meios tons, o ato de força em Tegucigalpa, repudiado igualmente pela União Europeia e a Assembleia-Geral da ONU”. [editorial “A volta de Zelaya”, do dia 23/9, clique aqui para ler]

O ato de força citado se trata da expulsão ilegal e truculenta, sem direito à defesa e ignorando a presunção de inocência, do presidente eleito pelo voto popular.

Pois bem, em entrevista ao jornal argentino Clarín (citada pelo Casoy ontem e reproduzida no Vi o Mundo hoje), o golpista Goriletti, num momento de sinceridade que deve ter revoltado a turma do PIG, revela os reais motivos do golpe:

“Depusemos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele foi presidente, como liberal, como eu. Mas se fez amigo de Daniel Ortega, Chávez, Correa, Evo Morales.

Deu uma guinada para a esquerda, colocou comunistas no governo e nos preocupou.”

Clique aqui para ler a entrevista completa no Vi o Mundo (com link para o original do Clarín).

Essa declaração franca do golpista-em-chefe corrobora outra revelação capital sobre a armação, divulgada no blog Honduras Coup, feito pelos bravos militantes da resistência hondurenha: a suposta tentativa de violação do artigo 239 da Constituição (o que veta a reeleição) sequer havia sido mencionado no início do golpe. Apareceu apenas dias depois, numa tentativa de legitimar a ação da quadrilha comandada por Goriletti. Isso o Reinaldo Azevedo ou o Ali Kamel também não vão abordar, mas leia (também através do Vi o Mundo) o que diz o texto:

“Por que o foco no artigo 239? A Suprema Corte não cita o artigo em seu processo contra Zelaya. O Congresso não cita o artigo em sua resolução de 28 de junho removendo Zelaya do cargo e indicando Micheletti presidente. Como esse artigo entrou na conversa?

A pista leva a uma moção de 1 de julho (publicada no dia 5) oferecida por Orlando Romero Pineda e aprovada por “todos os membros dos quatro partidos políticos, exceto os do Partido da Unificação Democrática”. Diz literalmente como parte do ponto 4 que “como resultado, como expresso no relatório do Decreto Legislativo de 28 de junho, o Congresso Nacional concordou em censurar o cidadão José Manuel Zelaya Rosales e removê-lo do cargo em virtude do artigo constitucional 239…”. No entanto, um exame do documento de 28 de junho não revela nenhuma menção ao artigo 239 em suas páginas.

Da publicação da resolução original de Romero Pineda no dia 5 de julho, o artigo 239 se tornou o argumento dominante apresentado pelo governo de Micheletti para a remoção de Zelaya.

É claro que o artigo constitucional e a forma como os golpistas poderiam usá-lo foram descobertos bem depois que eles tinham tirado Zelaya do país. É somente no dia 5 de julho ou mais tarde que aparece no jornal pró-golpe La Prensa, como justificativa para a remoção de Zelaya.”

Clique aqui para ler o texto original, em inglês, no blog Honduras Coup.

A cada dia que passa, a situação do PIG fica mais feia diante do enfraquecimento do golpe. Globo, Veja, Folha de SP, Estadão e outros torcem contra Zelaya porque torcem contra o êxito da diplomacia brasileira no episódio. Torcem contra Lula e não conseguem esconder isso. Não tenho dúvidas que alguns torcem até mesmo por um banho de sangue, para que possam responsabilizar o governo brasileiro.

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Responses

  1. Rogério,

    Muito boa sua análise sobre o caso de Honduras. Particulrmente, sempre achei esse Bóris Casoy um grande imbecil.


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