Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 18/09/2009

Xico Sá e os 15 anos do maior disco de rock pós-Mutantes

Quando escutei pela primeira vez as guitarras e os batuques iniciais em “Da lama ao caos”, em novembro ou dezembro de 94, na praia do Icaraí, nas cercanias de Fortaleza, exclamei:

– QUE PORR’É ESSA?!

da_lama_ao_caos

Uma exclamação de espanto muito agradável, ressalto. A temperatura do sangue subiu no compasso da música e ferveu mesmo quando Chico entoou:

“Oh Josué, nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

Aquela frase bateu forte na cabeça de um pré-vestibulando que sonhava ser jornalista para denunciar as injustiças e sacanagens da política a la Collor de Melo.

Quando, alguns meses depois, finalmente comprei o disco e escutei “Monólogo ao pé do ouvido”, tinha apenas uma muito vaga idéia sobre quem eram Zapata, Sandino, Zumbi e os Panteras Negras.

De Lampião e Conselheiro até que conhecia algo mais consistente porque gostava de História, numa época em que não existia o Dia da Consciência Negra, mas apenas o Dia da Abolição da Escravatura, e Zumbi era uma referência que figurava distante no ensino sobre o tema no Ceará.

“Da lama ao caos” não se trata apenas de música de boa qualidade. Junto com “Samba esquema noise”, do Mundo Livre S/A, outra obra sensacional, representa a materialização musical das idéias de jovens artistas muito talentosos que também se preocupavam com o mundo que os cercava, nas dimensões cultural, política e social (não são poucas as referências a Josué de Castro, por exemplo).

Idéias que foram divulgadas em dois manifestos que deveriam constar nos currículos escolares. Leia-os no site do Mundo Livre S/A.

Passei o carnaval de 97 em Olinda, quando a folia do Recife era dominada pelos trios tocando axé na Avenida Boa Viagem. Foi triste ver as coroas de flores na curva onde o Uno de Chico colidiu com um poste que nos privou da sua genialidade. Sim, sem qualquer exagero, Chico Science era um gênio musical. E a trajetória da Nação Zumbi dá muito orgulho a ele, esteja onde estiver.

E a cena cultural de Pernambuco mudou (pra muito melhor) depois da curta-porém-brilhante vida daquele Francisco de Assis França.

Encurtando a conversa, “Da lama ao caos”, na visão deste modesto escriba – sem nenhuma pretensão de ser comentador cultural, deixo claro – é o maior disco de rock brasileiro após terem saído de cena Os Mutantes.

Mais: é um dos álbuns mais inovadores dos últimos trinta anos da música brasileira, quiçá mundial.

Mas quem fala melhor sobre o contexto daquilo é o grande Xico Sá, dono do melhor texto do jornalismo braisleiro, em sua coluna na Ilustrada (Folha de SP) de hoje, reproduzo abaixo.

Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2009

Em São Paulo, lama, caos e corrupção
XICO SÁ

COLUNISTA DA FOLHA

Repórter farejador da lama política, esperava uma chamada sobre o destino do capo PC Farias, mas o fone do apê da Frei Caneca só tocava para os caras. Imprensa e gângsteres de gravadoras à procura de Science e Zero Quatro.
Primeira excursão, ainda sem discos, da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, ano da graça de 1993, São Paulo.
Foi aí que atinei para a marcha da história: estão aprontando alguma e não me contaram direito a bola. Com Zero Quatro, amigo do jornal “A Brecha” e de um grupo de estudos sobre “Crônica de Uma Morte Anunciada”, do García Márquez, havia sido enquadrado no campus da UFPE, rua 7 de Setembro e Beco da Fome, geografia afetiva e bagaceira do Hellcife velho de assombrações tantas.
Este outrora poeta também abria alguns shows do Mundo Livre, com leituras ao som do Love, play again Arthur Lee, teu povo o espera, volta, miserável, “forever changes”!
Science não dizia nada do que estava acontecendo, só tirava “la buena onda”; Zero Quatro tampouco. Nem dava tempo. Eles correndo para encontrar os “falcões” (crédito para Bob Dylan, baby) das gravadoras -na era paleolítica em que ainda se precisava disso- e o repórter fuçando pistas. De corrupção durante o dia e de rock à meia noite. Logo depois, Bia Abramo e Alex Antunes, meus Freuds do mangue bit (era assim a grafia inicial) me explicariam tudo.
Bem que o síndico de pijama bege e trezoitão em punho tentou acabar com a “embaixada” cósmico-universal-pernambucana, o quarto e sala da Frei Caneca. Sim, a trilha sonora era muito Hosana nas alturas, glória. Quando saiu “Da Lama ao Caos”, audiência inaugural, pense no silêncio dos tambores da Nação! Fui expulso de vez do prédio.
Inesquecível madruga com du Peixe, Lucio e Chico. Falamos de amores distantes e Corto Maltese, que inspiraria mais adiante, com a sua HQ que aborda Lampião, a música “Tiro Certeiro”. Ufa, como é bom passar no ferro quente da memória as brasas nunca adormecidas!

PS: Nunca me canso de recomendar, para quem não conhece o figura, assista ao clipe do Sidney Magal para a versão “muderna” de “Tenho”, com participações magistrais da belíssima Débora Falabella e do Xico. Veja:

Atualização com relato muito bacana do compa Odilon, torcedor do outrora glorioso Santa Cruz, time de maior média de público do futebol brasileiro em 2009.

Em 93, no ENECOM em pernambuco, a mundo livre, Chico science e o nação zumbi e os caranguejos com cerebro (boa banda) que ha pouco tempo lançaram o movimento mangue, participaram de um ato pela democratização da comunicação, em favor da aprovação da Lei de Informação Democrática, no Pátio de São Pedro, aqui em Recife.

Conheciamos eles há muito tempo. Tomanvamos todas juntos e quando em 92 acertamos a vinda do ENECOM para Recife comentamos com eles e eles queriam tocar no evento. Em janeiro, conversei com Chico, Fred e Renato L (hoje Secretário de Cultura do Recife e há época ministro das informações do movimento mangue) sobre a participação deles. Seria um ato pela democratização da comunicação e toparam de cara.

Infelizmente na época, e até hoje, não tocam nas rádios em Recife, nos comunicaram que tinham acertado a primeira saída de Recife enquanto movimento mangue, para uma excursão, que é esta que Xico Sá fala. Fizeram se não me falta a memória São Paulo, minas e Rio e o sucesso começou.

Chegamos a pensar que não rolaria mais o show deles. Mas voltaram a Recife só para participar do ato, no pátio de São Pedro. O povo não entendeu nada. Acho até que a maioria nem gostou. Mas me lembro que disse que um dia eles seriam reconhecidos. Que se tivessem a chance de tocar em rádio explodiriam para o mundo. me chamaram de louco, claro.

Que bom que eles estão ai até hoje. Fred e Renato L. estão conosco pela democratização da comunicação.

O manifesto mangue é um grito pela democratização da comunicação. E Lembro de zero 4 me dizer isso.Que bom relembrar isso. Que saudades de Chico.

Odilon Lima
Assessor Deputado Paulo Rubem
Ex-ENECOS e Ex- Âncora Agência de Comunicação & Talento

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Responses

  1. xico é sensacional mesmo, rojão. e tu “dá” pra comentador cultural, sim. eu fico com o “samba esquema noise”, mas pura questão de gosto: gosto bastante também da obra da nação zumbi, com e pós-science. abração!

  2. off topic, pero den’das lembranças: amanhã, minha coluna no jornal tribuna do nordeste relembra os 35 anos de outro importante disco da música brasileira. adivinha qual?


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