Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/08/2009

Um tiro, muitos gatilhos

De volta após uma semana muito intensa no trabalho e na militância, o que me impediu de publicar qualquer texto, trago um comentário e um artigo com reflexão importante sobre a morte de (mais) um militante da luta por reforma agrária no Brasil.

Mais uma vítima da violência protofascista – por não ter qualquer receio de eliminar fisicamente seus adversários – que, infelizmente, prevalece nas ações da Polícia Militar do Rio Grande do Sul.

Em visitas àquele estado, que tanto orgulho dá ao Brasil em diversas áreas, pude conhecer como age – a favor dos latifundiários e da máfia tucana que se apossou do Palácio Piratini – a PM-RS. Em breve falarei dessas visitas e dos casos que acompanhei.

Élton Brum, 44 anos, pai de dois filhos, é mais um brasileiro que pagou o preço por não ceder ao senso comum que afirma o tempo todo e por todos os meios disponíveis: “o povo brasileiro é acomodado e não luta por seus direitos”. Além de não ter acreditado nessa mentira – mais uma mentira da direitona -, Élton foi ainda mais ousado: resolveu colaborar com a organização política desse povo chamado de “cordial”. Organização política não para acumular poder, cargos, lucros ou privilégios, como faz a nossa elite econômica.

Mesma elite econômica que não tem coragem de sequer avançar rumo ao capitalismo real – já que vivemos num feudalismo “muderno” – por medo de perder seus privilégiso seculares. Todos os grandes países capitalistas, sem exceção, fizeram reformas agrárias e distribuíram a terra entre suas populações. No Brasil, 1% do total de proprietários rurais (cerca de 6 mil fazendeiros) acumula praticamente metade da área agricultável. Daniel Dantas é um destes graúdos.

A reação dessa elite é uma só: violência. Violência policial ou por meio de milícias, paramilitares, capangas, jagunços, “coronéis”, pistoleiros, bandos ou seja lá o nome que for. Ou violência política, no legislativo e no Executivo. Ou, por fim, a violência jurídica dos tribunais, que consideram o direito à propriedade mais sagrado do que o princípio constitucional da função social da propriedade.

Élton, que levou um balaço de calibre 12 no peito, durante despejo de ocupação do MST em São Gabriel(RS),  é mais um brasileiro vitimado por essas violências que servem para manter o status quo. Você lembra de Chico Mendes, da Dorothy Stang. Talvez de mais um ou dois. Como mostra a CPT, apenas nos últimos treze anos, contando exclusivamente os conflitos agrários, foram mais de quinhentos militantes e lideranças assassinadas. Só no Massacre de Eldorado dos Carajás, foram dezenove (além de centenas de feridos e 69 mutilados). Adivinha quantos (dos assassinos) estão presos…

Eu sei de dezenas de brasileiros e brasileiros que tiveram o fim de Élton. Conheci vários. E, pior, conheço outros tantos que vivem sabendo que são pessoas marcadas pra morrer. Em Pernambuco, na Bahia, no Maranhão, no Pará, na Paraíba, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná e em muitos outros lugares.

Estado de Direito? Democracia? Onde?

Segue artigo de Ayrton Centeno, publicado no RS Urgente, blog do Marco Aurélio Weissheimer (editor da Carta Maior).

http://rsurgente.opsblog.org/2009/08/22/um-tiro-muitos-gatilhos

Um tiro, muitos gatilhos

Aug 22nd, 2009

by Marco Aurélio Weissheimer.

Por Ayrton Centeno

Outros tiros continuam viajando para encontrar suas presas. E muitos outros irão se juntar a eles. Aquele que se refestelou na carne e no sangue de Élton, 44 anos, dois filhos, deixou de viajar. Nas redações, muitas mãos têm resíduos de pólvora.

O tiro que partiu da boca da espingarda 12 rumo ao corpo do sem terra Élton Brum da Silva foi disparado muito antes da manhã triste de inverno no coração da Campanha gaúcha. A bala começou a voar em tempos pretéritos, antes até do também triste governo de Yeda Crusius ser inaugurado com a governadora desfraldando invertida a bandeira do Rio Grande do Sul na sacada do Palácio Piratini. E o lema estampado no brasão “Liberdade, Igualdade, Humanidade”, que vai beber na fonte da Revolução Francesa e dos direitos fundamentais do homem, ficou de cabeça para baixo. Era um mau presságio.

O tiro com sua bala vem viajando, na verdade, desde décadas mas apressou-se nos últimos anos. Seu apetite tornou-se mais urgente. A nomeação de um militar com o perfil psicológico do coronel Paulo Roberto Mendes para o comando da Brigada Militar garantiu-lhe um impulso extra. Esta figura extemporânea aportou no governo – curiosamente de um partido que se diz social e democrata – um duplo ódio às manifestações da sociedade na democracia. Tudo bem, as palavras são, com freqüência, um biombo atrás do qual se perpetram os crimes mais hediondos contra o seu sentido original e a social-democracia em questão é somente uma alegoria no nosso carnaval político, a comissão de frente da direita no Brasil. Mas, convenhamos, seria uma demonstração de elegância protocolar que, ao menos, as aparências fossem mantidas. Nada disso. Sob a égide do PSDB, a bala passou a voar mais celeremente em busca do seu alimento.

O tiro aligeirou-se mas ainda zanzava a procura de seu alvo. Durante seu reinado, Mendes, o Bravo, destruiu acampamentos e seus soldados não menos bravamente despejaram terra nas panelas de comida que alimentariam homens, mulheres e crianças. Fez sangrar manifestantes, do campo e da cidade, até ser despachado para uma sinecura no Tribunal Militar do Estado, uma instituição fora de tempo e lugar, altamente merecedora do oficial de notável saber jurídico que passou a integrá-la.

O tiro que tanto espaço percorrera para saciar sua fome achou, enfim, seu repasto na dia 21 de agosto, ao se encontrar com Élton. Mendes partira mas outro coronel, Lauro Binsfield, ficou na linha de frente da repressão. Denunciado à Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação dos direitos humanos, foi mantido, mesmo assim, à testa das operações de guerra da BM no campo.

O tiro, peculiarmente, não foi deflagrado por apenas uma arma. Ele cumpriu seu fado sinistro porque muitos dedos apertaram muitos gatilhos. É ilusório pensar que o disparo só pertence a quem apontou a espingarda para desferí-lo.

O tiro não surgiu necessariamente como tiro. Nasceu, por exemplo, do entendimento de que a questão social é um caso de polícia e assim tem que ser tratada. Nasceu de uma caneta correndo sua tinta sobre o decreto de uma nomeação.

O tiro também partiu dos microfones, dos teclados, dos teleprompters. Da voz do dono e dos aquários. Brotou de uma ação ou mesmo de uma omissão. Na mídia, são muitos os dedos e os gatilhos que foram apertados. Uma imprensa para a qual a democracia não fosse somente uma palavra-biombo questionaria, por exemplo, a entrega do bastão do aparelho repressor a alguém desprovido das mínimas condições para empunhá-lo. Em vez disso, o que se viu foi um constrangedor capachismo dedicado à criação de mitologias reacionárias para afagar os sentimentos mais mesquinhos da classe média. Mas há torpezas piores. O fuzilamento sumário do MST nas manchetes, matérias, fotos, editoriais, artigos construiu um rancor belicoso no imaginário social contra famílias que reivindicam um pedaço de terra. E ocultou que os países importantes do mundo realizaram sua reforma agrária ainda no século 19 ou nos meados do século passado, medida que as elites brasileiras, até recorrendo ao golpe como aconteceu em 1964, impediram desde sempre.

O tiro viajou como outros viajaram no passado. Um dos filmes mais odiosos jamais feitos, O Eterno Judeu, de Franz Hippler, estreou em 1940, em Berlim, perante uma platéia sofisticada: artistas, cientistas, damas da sociedade e a fina flor do partido nazista. Na montagem alternam-se as cenas dos judeus, mostrados como preguiçosos, sujos e indignos, com moscas numa parede. É preciso convencer as pessoas de que aquilo é uma praga e precisa ser exterminada – mais tarde, um pesticida, o Ziklon B, será empregado na solução final. A arte de Hippler prepara o holocausto. Alguém dirá: mas esta é uma comparação extremada, vivemos em uma democracia! Sim, é verdade, apesar do coronel Binsfield. Mas não se pretende aqui, supor equivalentes a época, as partes, o tamanho da violência. O interesse está no processo. Quando a intenção é destruir o adversário – e isto se faz de diversas formas, como ao superexpor seus erros e/ou sonegar suas virtudes, usando do poder devastador dos conglomerados de mídia — o modus operandi é similar., Se o objetivo final, conscientemente ou não, é negar a humanidade do outro, tudo é possível. Porque o outro, então, está fora da proteção do arcabouço jurídico. Não é gente. E o passo seguinte pode ser sua eliminação, física inclusive.

Outros tiros continuam viajando para encontrar suas presas. E muitos outros irão se juntar a eles. Aquele que se refestelou na carne e no sangue de Élton, 44 anos, dois filhos, deixou de viajar. Nas redações, muitas mãos têm resíduos de pólvora.

Foto: Eduardo Seidl

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Responses

  1. Parabéns você merece um prêmio. Texto maravilhoso e de fácil compreensão. A sua matéria relata toda uma revolta um grito preso indignação de repudia.
    Este Senhor que não merece nem ser lembrado, é um câncer para o estado do Maranhão, é um câncer para o Senado.
    Continue assim com essa linha editorial.
    Pessoas como você (Rogério Tomaz), merecem todo respeito e admiração.
    Um forte abraço.


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