Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/07/2009

Arruda, Veja e o jornalismo me engana que eu gosto

[Fonte original: http://www.blogdapaola.com.br/?p=4748]

Já escrevi sobre a simpatia da mídia pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PFL/Demo), aqui mesmo nesse blog e no Observatório da Imprensa.

A simpatia, praticamente reverência, é a mesma que sempre foi dedicada, via de regra, ao jovem e promissor político maranhense descoberto algumas semanas atrás, culpado pelo crime hediondo de ser aliado do presidente Lula.

Na Veja da semana passada (edição 2121), Arruda foi o entrevistado nas seção Páginas Amarelas.  O título da entrevista, que simboliza o tom da conversa, diz muita coisa: “Ele deu a volta por cima”.

Para os jornalistas de Veja, a volta por cima de sete anos atrás vale entrevista em seção nobre

Para os "jornalistas" de Veja, a "volta por cima" de sete anos atrás vale entrevista em seção nobre

A “volta por cima” a que se refere a revista teve início em 2002, quando o ex-tucano – depois de ter renunciado ao posto de senador (para não ser cassado), em 2001, por ter sido pego com a boca na botija no escândalo de violação do painel do Senado – se elegeu deputado federal pelo PFL-DF, com uma votação estrondosa (324.248 votos, que representaram impressionantes 26,6% dos votos válidos para deputado federal).

Arruda diz que aquela votação era a prova de que tinha sido perdoado pelo povo do Distrito Federal. Tanto, endossa ele, que foi eleito governador dois anos depois, passando por cima, bem ao estilo José Serra, de seu colega de partido, Paulo Octávio, na disputa pela cabeça de chapa.

Pois bem, sete anos depois de ter ressurgido das cinzas políticas, a revista de maior circulação do Brasil resolveu agora fazer entrevista com o senhor Arruda, ressaltando esse “fato novo” (o critério de noticiabiliade número um do jornalismo é a atualidade) que é a “volta por cima”.

Na verdade, o fato novíssimo, tão recente quanto oculto de qualquer noticiário, foi a generosidade do governador Arruda com a Editora Abril, que publica a Veja. Em junho, sem licitação, o estuprador do painel do Senado presenteou a Abril com um módico cheque de R$ 442 mil, referentes a um contrato para distribuição de exemplares da Veja – ainda não consegui apurar a quantidade – nas escolas públicas do DF.

[clique para ampliar]
A melhor liberdade de imprensa que o $$ pode comprar

A melhor liberdade de imprensa que o $$ pode comprar

Esse é o tipo de ação (entre amigos) bastante comum que sustenta a gloriosa e sagrada liberdade de empresa imprensa dos nobilíssimos defensores da democracia brasileira. Serra, em São Paulo, já fez o mesmo e por causa disso está sendo, coitado, acusado de improbidade pelo Ministério Público. Leia aqui e aqui sobre isso.

Voltando à “entrevista”, Arruda disse o seguinte:

“Sei que existe corrupção no meu governo, mas sempre que eu descubro há punição.”

Era o gancho perfeito para o jornalista (?) Otávio Cabral perguntar: há exemplos disso? E se houvesse seriedade da revista ou do jornalista, a pergunta iria além: e o caso comprovado de corrupção no amistoso entre Brasil e Portugal, na reinauguração do estádio Bezerrão? Alguém foi punido? O Ministério Público descobriu que Arruda – contrariando parecer da sua própria Procuradoria – contratou uma empresa-fantasma para organizar o jogo. Ao que se sabe, ninguém foi punido até agora. (Leia matéria do Noblat com detalhes do caso)

Mais: o “jornalista”, que deve ser aluno da escolinha Carlos Monforte de Jornalismo (vídeo 1 e vídeo 2), sequer chegou perto de tocar no assunto mais discutido da política brasiliense na atualidade: Arruda vai cumprir o acordo feito em 2006 com Paulo Octávio (que abriu mão de ser o cabeça de chapa em 2006 para sê-lo em 2010)?

No fundo, nada disso surpreende. É o jornalismo “me engana que eu gosto” de Veja. Seus assinantes sabem que a revista é assim e não se incomodam, porque ela é o espelho deles.

PS: Recebi a dica do Zema Ribeiro e descobri outras operações de pagamento pela liberdade de imprensa da qual o Arruda desfruta. Publicarei no próximo texto, não deixe de ler.

PS2: Não se espante se daqui a alguns anos a reverência a Arruda, da qual também já desfrutaram Sarney e Joaquim Barbosa (antes de enfrentar o empresário e pecuarista que preside o STF), se transformar em rejeição, caso o estuprador do painel se torne aliado de um eventual governo Dilma Rousseff.

PS3: Na matéria paga “entrevista”, Arruda também registrou essa pérola:

“O PT tem uma visão de instrumentalização da máquina pública e politiza as relações que deveriam ser institucionais.”

Ele esqueceu de dizer que o PT também é inimigo da liberdade de imprensa. Ele, claro, é muy amigo dessa liberdade.

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Responses

  1. Amigo, dê os créditos devidos.


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