Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/06/2009

Até a marmita é cara para os nossos usineiros “modernos”

O título do texto é emprestado do amigo Fernando Carneiro para sintetizar uma situação, literalmente, secular.

Os atuais senhores da Casa Grande, já despojados – pelo menos formalmente – da senzala, andam em carros ultramodernos, mas continuam com as mesmas práticas medievais de sempre.

Entre elas, a desrespeitar direitos humanos dos trabalhadores agrícolas – lógica coerente, afinal, para a turma de ruralistas representados pela CNA/UDR, estes não são seres humanos, são apenas “mão-de-obra”, sem cérebro, sem coração e, obviamente, sem direitos a serem respeitados.

Fernando, em sua tese de doutorado, demonstrou que os bóias-frias do agronegócio de Unaí, cidade do oeste mineiro próxima a Brasília, vivem em situação de insegurança alimentar quatro vezes pior do que a de assentados da reforma agrária no município e duas vezes mais intensa do que a de sem terra acampados na região.

Fiz uma matéria a respeito dessa tese para o site da Abrandh. E a Agência Brasil fez uma série de reportagens sobre o impecável trabalho que expõe uma ferida grave do “Plantation Mudernus”.

O tema voltou a ser pauta. Abaixo (clique em Leia Mais) seguem dois textos de hoje (19/6) na  Folha de São Paulo, de Eduardo Scolese.

Vale registrar que todos os anos há vários casos de mortes súbitas de canavieiros, por uma conjunção de fatores que incluem a exposição intensa a pesticidas, a carga de trabalho sobre-humana (alguns chegam a dar mais de 1o mil golpes de podão por dia para cortar 15 toneladas), a má alimentação e as péssimas condições sanitárias dos alojamentos, entre outros. Notícias sobre isso não faltam: [1][2][3]

Folha de São Paulo, 19 de junho de 2009.

Usina não será obrigada a dar comida a cortadores de cana Acordo diz que será obrigatório fornecer recipiente para manter alimento aquecido

Apesar disso, compromisso é elogiado por entidades de usineiros e de trabalhadores; documento será lançado por Lula na próxima semana

Edson Silva/Folha Imagem

Trabalhadores rurais durante blitz do Ministério Público do Trabalho em fazenda no interior de SP; fornecer comida será opcional

EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com avanços reconhecidos por governo, empresários e trabalhadores, o compromisso nacional para melhorar as condições de trabalho no setor sucroalcooleiro não mexerá na realidade de insegurança alimentar dos cortadores de cana.
A Folha teve acesso ao documento final, que será lançado na próxima quinta-feira pelo presidente Lula. No item alimentação, o compromisso dos usineiros para no fornecimento de recipientes a fim de manter o alimento aquecido.
Os trabalhadores e o próprio presidente esperavam que os empresários assumissem a responsabilidade pela comida.
Semanas atrás, em evento reservado no qual lhe foi apresentado o texto, Lula reclamou com os usineiros. “Você está dando uma marmita térmica, mas cadê a comida? Está vazia?”, teria dito, segundo relato de presentes ao encontro.
O fornecimento da alimentação, na prática, traria dois ganhos imediatos aos cortadores: uma refeição balanceada e, em consequência, menos problemas de saúde. “Esse assunto [da alimentação] continuará presente nas negociações e virá ao compromisso, sem dúvida”, diz Marcos Jank, presidente da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar). Ele cita a logística complicada e o alto custo como os empecilhos atuais.
Segundo os próprios trabalhadores, a ausência desse ponto não esvazia a importância do compromisso nacional, construído por dez meses numa mesa de diálogo entre governo, trabalhadores e empresários, sob a coordenação da Secretaria Geral da Presidência.
“Pela primeira vez no Brasil uma atividade produtiva faz uma discussão como essa. Por isso acreditamos no compromisso”, afirma Antonio Lucas, da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). “É um marco que merece ser enaltecido”, diz Elio Neves, presidente da Feraesp (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo).
Hoje, há 1,2 milhão de pessoas no setor. O foco do compromisso, porém, está nos 500 mil cortadores de cana, vítimas do ritmo exaustivo de trabalho e algumas vezes flagrados em situação degradante.
O lançamento desse compromisso é o primeiro passo para mudar essa realidade e evitar que a imagem do álcool brasileiro no exterior seja atrelado a esse tipo de denúncia. Em 2007, Lula chamou de “heróis” os usineiros brasileiros, o que provocou críticas de acadêmicos e de movimentos sociais.
A adesão será voluntária e, em troca, os empresários terão seus nomes incluídos numa espécie de “lista branca” das boas práticas. No Brasil, há 413 usinas, e, até ontem, ao menos 60 já haviam sinalizado pela assinatura do documento.
A mesa de diálogo será mantida para buscar ajustes no texto e fiscalizar as empresas signatárias por meio de auditorias independentes.
“As que optarem [pelo compromisso] servirão de modelo para as demais”, afirma Jank.
O compromisso é uma espécie de termo de ajustamento de conduta adotado pelo Ministério Público, só que sem multa. “Mas esse [termo] tem compromissos morais”, afirma Renato Cunha, do Fórum Nacional Sucroenergético, que reúne usinas de todo o país.
No texto, destaca-se o compromisso dos usineiros de apenas contratar os cortadores de forma direta, eliminado assim a terceirização e a participação do “gato” -o aliciador de mão de obra degradante.

*****

Folha de São Paulo, 19 de junho de 2009.

Trabalhador quer piso nacional, e usineiro, mais políticas públicas

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Finalizado o primeiro compromisso da cana-de-açúcar, chamado de histórico pelo presidente Lula, trabalhadores cobram agora novas iniciativas dos usineiros, enquanto estes pedem mais políticas públicas ao governo federal.
Do lado dos trabalhadores, a principal demanda aos empresários é pelo fornecimento da comida. Fernando Carneiro, professor de epidemiologia e saúde ambiental da UnB (Universidade de Brasília), diz que a situação dos cortadores é de insegurança alimentar.
“Não falo nem da qualidade, mas da falta de comida mesmo. É uma situação de insegurança alimentar grave. Mal alimentado, o organismo entra em colapso”, diz Carneiro, que, em pesquisa, identificou que a situação de insegurança alimentar dos boias-frias é quatro vezes superior à de um assentado.
Além da alimentação, os trabalhadores querem a adoção de um piso salarial nacional, para que o pagamento não seja baseado apenas na produção, fator que os incentiva a trabalhar no limite da exaustão.
Cobrados pela alimentação, os empresários pedem a criação de um seguro-desemprego no período da entressafra.
“As coisas são degrau por degrau. É preciso haver mais políticas públicas e um seguro-desemprego ao trabalhador temporário”, diz Renato Cunha, do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Pernambuco e, na mesa de diálogo, representante do Fórum Nacional Sucroenergético. (ES)

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Responses

  1. e desde quando nos debruçamos, como sociedade, pra por fim ao pecado agrário brasileiro? O latifúndio monocultor e escravocrata está de tal forma entranhado em nossa cultura, que todos sabemos suas mazelas, mas fingimos cinicamente acreditar nas maravilhas do agronegócio. E os que lutam contra ele são atrasados, bandidos, baderneiros – mas seguem (seguimos) lutando e um dia hão (havemos) de vencer.

  2. Muito boa a matéria, parabéns!

  3. A matéria está ótima! O Brasil finalmente está se defendendo das críticas do exterior!

    Parabéns!


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