Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 05/06/2009

Cotas raciais nas universidades: a realidade desmente o senso comum

Lembro muito bem da época em que me interessei e passei a acompanhar e a participar do debate sobre cotas raciais nas universidades públicas.

Isso foi em 2001, quando o movimento estudantil deixou de ser uma possibilidade para ser uma prioridade na minha formação para além do que já chamava de “trinômio da mediocridade” (aulas, trabalhos e provas).

Num encontro de estudantes em Salvador, na Semana Santa de 2002, o tema foi destaque. Levamos ao campus da UNEB (Universidade do Estado da Bahia) no Cabulabairro popular da capital baiana – um dos grandes defensores da cotas e militantes do movimento negro, Édson Lopes Cardoso.

O debate com Édson, atualmente editor do jornal Irohin, me marcou bastante. Eu tinha acabado de ler “Escrevo o que eu quero”, seleção de textos do Steve Biko que, para a minha formação política, tem quase a mesma importância de “As veias abertas da América Latina”, do Galeano.

Todas as dúvidas ou hesitações que eu ainda pudesse ter em relação à necessidade e à legitimidade da política de cotas raciais se dissiparam naquela noite de conversa com Édson Cardoso.

Para encurtar o texto e ir direto ao filé, hoje tomei conhecimento, pelo Azenha, de um artigo do Elio Gaspari – de cujas ideias  práticas jornalísticas discordo na maioria das vezes, ressalto. É um leve tapa na cara de quem tem o pensamento dominado pelo senso comum ou pelo PiG. Leia para conhecer as falácias que foram derrubadas pela realidade e pelo debate.

E não deixe de ler a nota da Comissão de Direitos Humanos da Câmara a respeito da suspensão da Lei das Cotas nas universidades do Rio de Janeiro.


As cotas desmentiram as urucubacas

Os negros desorganizariam as universidades, como a Abolição destruiria a economia brasileira

QUEM ACOMPANHASSE os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro:
“Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho.”

Livres os negros, as cidades seriam invadidas por “turbas ignaras”, “gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade”. A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada.

Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?).

Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa.

De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar 18 anos e não se registraram casos significativos de exacerbação. Há cerca de 500 mandados de segurança no Judiciário, mas isso nada mais é que a livre disputa pelo direito.

Num curso paralelo veio a mandinga do não-vai-pegar. Hoje há em torno de 60 universidades públicas com sistemas de acesso orientados por cotas e nos últimos cinco anos já se diplomaram cerca de 10 mil jovens beneficiados pela iniciativa.

Havia outro argumento: sem preparo e sem recursos para se manter, os negros entrariam nas universidades, não conseguiriam acompanhar as aulas, desorganizariam os cursos e acabariam deixando as escolas.

Entre 2003 e 2007 a evasão entre os cotistas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi de 13%. No universo dos não cotistas, esse índice foi de 17%.

Quanto ao aproveitamento, na Uerj, os estudantes que entraram pelas cotas em 2003 conseguiram um desempenho pouco superior aos demais. Na Federal da Bahia, em 2005, os cotistas conseguiram rendimento igual ou melhor que os não cotistas em 32 dos 57 cursos. Em 11 dos 18 cursos de maior concorrência, os cotistas desempenharam-se melhor em 61 % das áreas.

De todas as mandingas lançadas contra as cotas, a mais cruel foi a que levantou o perigo da discriminação, pelos colegas, contra os cotistas.
Caso de pura transferência de preconceito. Não há notícia de tensões nos campus. Mesmo assim, seria ingenuidade acreditar que os negros não receberam olhares atravessados. Tudo bem, mas entraram para as universidades sustentadas pelo dinheiro público.

Tanto Michelle Obama quanto Sonia Sotomayor, uma filha de imigrantes portorriquenhos nomeada para a Suprema Corte, lembram até hoje dos olhares atravessados que receberam ao entrar na Universidade de Princeton. Michelle tratou do assunto em seu trabalho de conclusão do curso. Ela não conseguiu a matrícula por conta de cotas, mas pela prática de ações af irmativas, iniciada em 1964. Logo na universidade onde, em 1939, Radcliffe Heermance, seu poderoso diretor de admissões de 1922 a 1950, disse a um estudante negro admitido acidentalmente que aquela escola não era lugar para ele, pois “um estudante de cor será mais feliz num ambiente com outros de sua raça”. Na carta em que escreveu isso, o doutor explicou que nem ele nem a universidade eram racistas.

Elio Gaspari, Folha S.Paulo, 3/6/2009

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Responses

  1. O Gaspari, vc sabe, é um grande admirador da sociedade dos EUA, de onde veio essa idéia de “cotas raciais”. Não me parece que ele tenha encerrado o assunto com um artigo que só escolhe os argumentos contrários que é fácil refutar.
    Claro, se qualquer objeção às cotas raciais é apenas mais “mentira da direitona” (quer dizer, da extrema-direita) então eu não quero nem ouvir. Pois não gosto de mentirosos, nem de extremistas, nem de direitistas. Mas só eles tem objeções? Esses grupos negros que são contra as cotas ou vc diria que são simplesmente burros? A questão das cotas em geral e das cotas raciais (aceitar um tipo de cota não obriga a concordar com outra) é de grande complexidade. É melhor discuti-la de espírito aberta do que dá-la por encerrada por decreto. Grande abraço e parabens pelo blogue.

  2. Gaspari, se cota é racismo, mais racismo é retir´-la sabendo-se que realidade ve desmentindo os profetas do contra a sociedade, já que acham que o dinheiro p´blico é´só para servi-los. Mas tem muita gente boa a espera de uma oportunidade.
    Eu tambm sou contra as cotas desde de que haja
    UNIVERSIDADE PÚBLICA para todos. Chegamos lá.Gostei, continui, boa sorte.Um abraço

  3. Se o desempenho dos cotistas é tão bom (até superior ao dos não-cotistas) por que eles não podem concorrer normalmente ao Vestibular como todo mundo? Qual seria o sentido das cotas?

    • Tentei dialogar com o/a leitor/a que assina como Renata e usa o email “iamanare@gmail.com”, mas esse email não existe. Publico aqui o comentário que enviei a ele/a.
      *****
      Cara Renata, obrigado pelo comentário.

      Tenho certeza que você sabe que o vestibular é um processo seletivo bastante amplo, mas que, a rigor, não mede capacidade cognitiva, de aprendizagem e de desenvolvimento intelectual.

      A universidade, em princípio (já que há as distorções causadas pela mentalidade do pragmatismo tecnicista e mercadológico, mas nas públicas isso é UM POUCO menos intenso), é algo completamente diferente.

      Se a pessoa não aprender, de fato, terá dificuldades para se manter no curso ou para se distinguir doe seus pares (conseguir bolsas de iniciação científica, por exemplo) na dimensão acadêmica.

      Assim, na minha humilde opinião, não é possível comparar processos bastante distintos entre si.

      As cotas (raciais, econômicas ou de origem – escola pública…) possuem inúmeros sentidos e objetivos. A meu ver, o principal deles é diminuir o abismo existente entre negros e não negros no acesso ao ensino superior. Há dados que comprovam que, mesmo com a ampliação (que caminha para a universalização) do acesso ao ensino fundamental e médio (também com diferenças grandes entre negros e não negros), o abismo racial e econômico no acesso às universidades pública persiste. Daí que as cotas são um mecanismo sócio-político para amenizar essa distorção no direito de igualdade de acesso ao ensino superior público e gratuito.

      Abrs,

      Rogério Tomaz Jr.

  4. A VERDADE para mim é que o governo fez as cotas porque sabe que o Brasil é um país preconceituoso não é atoa que existe mais negros vivendo em situação precária que brancos da mesma forma que existe bolsas pra estudantes de escolas públicas porque a escola pública é bem mais precária que a particular .Só que a distriminação no Brasil em questão de integração de negros na sociedade é algo que não foi superado, sendo assim é mais fácil “facilitar” o acesso a universidade para os negros do que encarar o problema de frente trazendo medidas mais fortes de integração no mercado de trabalho educação ,na sociedade no geral … Enfim os negros não devem se abrir mão desse direito, mas devem exigir medidas melhores , isso é algo que serve para qualquer etnia, para daí sim no futuro todos sejam tratados de forma igual .

  5. Sou a favor das cotas sim, esta política de inclusão urgente e necessária serve para que o poder público entenda a necessidade de maior atenção á educação pública e o que reinvidicamos é direitos iguais, mas como podemos falar sobre isso sem pensar que ainda os acessos são restritos…
    Caros, as cotas foram criadas como medida imediata para um problema que se arrasta ao longo da história brasileira.
    Queremos e precisamos estudar, estamos buscando nosso espaço na sociedade, mas infelizmente ainda, só o conseguimos através de uma cota aqui, um projeto alí, ainda é pouco, mas se devagar ocupamos os espaços que até então nos era NEGADO!

    Sou pobre,negra, mãe solteira, mas quero mudar essa realidade, minha e de tantas outras pessoas,até que toda a estrutura educaccional deste país mude também, daí meus caros, as cotas não serão mais necessárias!!!


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