Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 31/05/2009

A política (anti)cultural no Maranhão de Sarney

Certa vez, na minha curta residência em Salvador, um amigo percussionista, cineasta e militante cultural, Gustavo Pereira, enquanto passeávamos pelas ruas do Pelô, me apresentou o genial Neguinho do Samba, criador da batida do samba-reggae, ex-integrante do Ylê-Ayê e Olodum, hoje dedicado ao grupo Didá, projeto que prioriza o trabalho com mulheres e crianças.

Ao saber que eu vinha do Maranhão, Neguinho, figura de enorme simplicidade e carisma, me saudou com entusiasmo, afirmando o respeito que tinha pelo tambor de crioula*: “Só vocês no Maranhão têm aquilo, nenhum outro lugar do mundo faz igual”.

Cito esse episódio para ilustrar a riqueza e o valor da cultura maranhense. Ao lado do tambor de crioula, o cacuriá, os bois (nos seus vários sotaques – estilos), a música (não o reggae, a chamada MPM – Música Popular Marahense mesmo, de onde saíram Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, César Nascimento, entre muitos outros), as letras (que deram um Gonçalves Dias, um Ferreira Gullar, só pra ficar com dois dos mais conhecidos) e outras artes compõem um caldeirão cultural extremamente diversificado e ativo.

Ao contrário da Bahia e de Pernambuco, onde os gestores culturais estão, há muito tempo, à altura dos artistas, no Maranhão ainda se vive na pré-história (e na contramão) das políticas culturais.

Pasmem-se, por exemplo, com a recente declaração do Secretário de Estado de Cultura, Luís Bulcão, do governo de proveta atualmente instalado no Palácio do Leões:

“Em minha gestão o Tutuca não ganhará nada, está fora. A briga com o Ronald (Pinheiro, compositor) mostrou o quanto ele estava engajado politicamente com o grupo que faz oposição ao nosso”.

A afirmação sobre o músico Tutuca, independentemente de qualquer outro elemento em discussão, escancara o personalismo com que o setor é conduzido pela turma de Rose(ng)ana Sarney.

tutuca

Tutuca, vítima do dono da panelinha da Secretaria de Cultura de Rose(ng)ana Sarney

Bulcão, homem de confiança do clã, talvez nem tenha noção do significado da sua declaração. Ao dizer o que disse ao repórter Daniel Matos (Mirante), ele rasga a Constituição (Art. 37**) e abre as portas para ser processado e perder o cargo.

A declaração de Bulcão pode ser comparada à de José Sarney, O Dinossauro, quando pediu ao filho, Fernando, que usasse a TV da famiglia – concessão pública – para atacar adversário político, como já escrevi aqui. A diferença é que Bulcão falou em caráter público, o que é mais grave ainda.

Numa época em que o setor cultural vem caminhando, devagar, mas firme, rumo à consolidação de uma cultura política republicana, com a definição de apoios e financiamentos a artistas excluídos da indústria com base em editais e seleções públicas, Bulcão explicita um dos motivos que explica o atraso colossal do Maranhão em relação aos vizinhos e ao restante do país.

Bulcão não está à altura de exercer a função de secretário de Estado. E o Maranhão, principalmente a categoria dos artistas e produtores culturais, não merece ter no comando de uma área tão vital uma pessoa que não tem pudor – a famosa vergonha na cara – de dar uma declaração como esta (entre outras publicadas na mesma entrevista), símbolo das práticas típicas de coronéis políticos como os patrões dele.

Tomei conhecimento da declaração em artigo do amigo Zema Ribeiro, que entende muito mais de cultura do que eu.

*Para quem não conhece o tambor de crioula, recomendo o excelente “No fiel da balança”, vídeo de estreia de outro amigo talentoso, Francisco Colombo, exibido várias vezes na TV Câmara e ganhador de festivais importantes. O vídeo, feito em 2001, é encerrado com um recado àqueles que são os maiores (ir)responsáveis pelo Maranhão ser o que é, sinônimo de Haiti.

**Art. 37 da CF-1988: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (…)”.

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Responses

  1. rojão,
    fico lisonjeado com o “entende muito mais de cultura do que eu”. justo eu que tanto aprendi (e continuo aprendendo) contigo desde que nos conhecemos.
    ao governo do maranhão só resta sugerir um slogan; em vez do ridículo colorido do “maranhão: de volta ao trabalho”, que tal “maranhão: na contramão do brasil”?
    grande abraço!

  2. O que nos resta nesta terra de sofrimento? Aqui tudo é assim. No momento em que nos tiraram o direito de escolher os nossos governantes, haja vista que o voto de 04 ministros do TSE valem mais do que o da mairia dos maranhenses, nada mais nos resta. Se o Bul(cão) ou capeta, não tem legitimidade para representar e geri nossa cultura, o que dizer de sua chefe? Pobre Maranhão, pobre terra de tanta magia. Parabéns pelo artigo postado.


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