Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 31/05/2009

O futebol na terra da rasteira

Não deixe de ler o artigo abaixo, colaboração primorosa de Thalles Gomes publicada no Impedimento, um canal de futebol anos-luz à frente de qualquer concorrente (com aliteração e tudo!), em termos de riqueza de textos – me refiro à irreverência, à diversidade de pontos de vista e estilos, tudo no mais alto finesse jornalístico-literário.

Clique em leia mais para ler o texto, do tipo que merece ser pendurado em quadro na parede do quarto.

O Futebol na terra da Rasteira*

19/05/2009 <!–douglasceconello–>

“Futebol é o ópio do povo” me mandou dia desses um jovenzinho de boina e All Star vermelhos.

Estava tomando uma cerveja e falando mal do Simon no bar do Jacaré e me controlei para não mandar aquele merdinha pra Sierra Maestra que o pariu.

Mas como eu estava num dia bom – ia me encontrar com uma galega depois do jogo – respirei fundo, me acalmei, virei pro merdinha e falei:

– Deixa de viadagem!

O che-guevara-de-shopping-center deu um pulinho e retrucou:

– O senhor é um homofóbico!

“Pior é tu, que é viado!”, respondi na bucha.

E antes que ele pudesse abrir a boca, continuei:

– Viado não, tu deve ser burro mesmo. Tu não é daqui, não é? Logo vi. Pois vou te contar. Aqui no estado, quando o futebol começou a se difundir, a rapaziada se reuniu para definir os nomes dos clubes. Contradizendo essa tua opinião rasa, os caras estavam preocupados também com o alarmante índice de analfabetismo da população local. Você imagine, estou falando dos primeiros vinte, trinta anos do século passado. Se hoje 35% da povão ainda é analfabeto, contabilize naquela época. Pois então, num gesto nobre, antecipando inclusive os ensinamentos de Paulo Freire, o pessoal decidiu unir futebol e alfabetização e foi colocando o nome de CRB, CSA, CSE, ASA e assim por diante nos times daqui, até surgir o primeiro Campeonato de Futebol Soletrado do país. Isso mesmo, o Campeonato Alagoano, que pode até não ser lá essas coisas, mas é o único reconhecido pela UNESCO.

Depois de uma breve pausa para lembrar os tempos boêmios da mãe do Simon e não tendo nada melhor pra fazer – ainda faltava mais de uma hora pra galega -, resolvi preencher a boina do merdinha com algum conhecimento útil.

– Olha, barbinha rala, eu até acho que o futebol deu uma descambada duns tempos pra cá. Mas a culpa em boa parte é desse samba de crioulo doido que chamam de Clube dos Treze. É por isso que quando os timecos daqui jogam com esses putos eu vibro mais que em final de campeonato.

Veja, por exemplo, o Flamengo. Maior torcida do Brasil e coisa e tal. Veio em 1995, em pleno ano do centenário, jogar no Trapichão com camisa comemorativa e “melhor ataque do mundo, melhor ataque do mundo, pare um pouquinho, descanse um pouquinho, Sávio, Romário e Edmundo” e deu no que deu. Levou de três da seleção alagoana – na verdade, o CRB com dois gatos pingados do CSA. É o que eu sempre digo pra esses rubro-negros metidos à besta, “vocês são um reles Clube de Regatas do aterro do Flamengo, não podem se comparar à força de um Clube de Regatas Brasil”.

O Fluminense, então, nem se fala. Teve que recorrer ao tapetão por duas vezes para fugir do Colosso da Pajuçara na série B. Receoso, obviamente, do equilibrado retrospecto entre as duas equipes. Afinal, em seis jogos, fizemos dois gols e levamos apenas treze. E naquele brasileiro de 76 arrancamos nosso melhor resultado contra os pós-de-arroz da vida. Um a um contra o Fluminense. De Feira de Santana.

O Vasco é outro fujão. Cansamos de esperar o bacalhau e, justo quando partimos para a conquista do Título da Série C, eles inventam de cair da A. Mas não tem problema. Com craques do quilate de Pimpão e Kardec tenho certeza que iremos nos encontrar ano que vem na Série B.

Com o Botafogo eu não mexo, porque respeito os mortos. Só posso dizer que nem o Garrincha aguentou a zica da estrela solitária e veio jogar em Alagoas.

De fato, muitos craques passaram por aqui. Deve ser porque, apesar das dificuldades, o futebol alagoano é muito pé-quente. Veja por exemplo o histórico entre CRB e Atlético Mineiro. O confronto entre os galos sempre foi um bom presságio para o mineiro. Nas duas vezes que o Atlético foi campeão brasileiro teve o CRB pela frente, quiçá nos jogos mais difíceis da competição. Os resultados não me deixam mentir. Um a um em 71 e um duríssimo cinco a zero em 2006.

O histórico contra a Raposa também nos é favorável. Em quatro jogos, levamos oito gols e fizemos um naquela suada vitória do Cruzeiro por quatro a um no brasileiro de 72.

Nunca ganhamos dos Gre-Nais, é um fato. Mas o Grêmio, depois da saída do Celso Roth, perdeu a graça e só vai ganhar a Libertadores por causa de um alagoano. E foi outro alagoano que fez o gol mais importante da história do Internacional. E nem me venham os colorados como essa balela de Campeão de Tudo, que campeão alagoano como até o ASA de Arapiraca já foi, vocês nunca vão ser.

Falando em ASA, outro do Clube dos Treze que não pode ouvir esse nome é o Palmeiras, eliminado pela Agremiação Sportiva Arapiraquense na Copa do Brasil de 2002. Eliminar time paulista é uma especialidade dos times pequenos de Alagoas. O CSA mesmo, uma semana antes de cair para a segundo divisão do estadual, despachou o Santos em plena Vila Belmiro.

O CRB só levou chocolate do Tricolor paulista, verdade seja dita. Mas em compensação arrancou um empate heróico com o Tricolor original no brasileiro de 79. Sim, Tricolor original, o Ferroviário cearense do Jacaré aqui, fundado em 1933. É sempre assim, o macho cria uma coisa nova e vêm esses paulistas pra imitar e levar a fama.

Pra fechar a conta dos paulistas, só falta o time do Parque São Jorge. Inesquecível o duelo pela abertura da Série B no ano passado. Reinauguração do Pacaembu. Estréia do Corinthians na Série B. Torcida em polvorosa. Primeiro minuto de jogo e uma cabeçada certeira do zagueiro regatiano Márcio cala o estádio. Um a zero. Silêncio sepulcral. Davi derrotando Golias. Que a glória tenha durado menos de um minuto, tempo suficiente para Herrera empatar, e que o jogo terminasse três a dois pro Corinthians é um mero detalhe. Dez de maio de 2008 vai entrar para a história como o dia em que o Galo de Campina silenciou o Gavião.

O décimo terceiro é o Bahia. Poderia me vangloriar pela vitória de um zero no brasileiro de 84 – aquele saudoso esquadrão que contava com nomes de peso, como o Coca na meia e o Fanta no ataque, sob o comando firme do China. Mas a maior derrota imposta aos baianos foi, sem dúvida, a vitória de virada fora de casa sobre o Criciúma por dois a um, com gol de pênalti nos acréscimos, que livrou o Galo do rebaixamento e enterrou o Bahia – e de canja o Vitória – para a Terceirona.

Pois é, barbinha, espero que depois de tantas informações privilegiadas você tenha aprendido alguma coisa e pense duas vezes antes de assaltar o ouvido alheio. E agora me dê licença que eu tenho uma galega para encontrar. Ô, Jacaré, o Trotski aqui paga!

(*) O Mestre Graça é que estava certo: “O futebol não pega, tenham a certeza (…) Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva. Dediquem-se à rasteira, rapazes!”

*****

Bela contribuição enviada por Thalles Gomes, “regatiano e retirante”, que nos propôs um Top Humilhações do Clube dos 13, pois, nas palavras dele, “assim como 95% das agremiações tupiniquins, meu time nunca vai ser campeão brasileiro ou vai disputar uma Libertadores. Mas isso não tem a menor importância. Basta ganhar vez ou outra de algum membro do Clube dos Treze pra fazer alguma justiça histórica.”

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