Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 30/05/2009

Curió, finalmente, no banco dos réus

Com muito atraso, o coronel Sebastião Curió vai ao banco dos réus. Não pelos assassinatos – confirmados pelo próprio – cometidos na Guerrilha do Araguaia. Mas por ter matado um adolescentes em 1993, com tiro nas costas. Apesar desse “detalhe”, Curió alegou legítima defesa.

Um dos assistentes de acusação, Augustino Veit, é meu colega de trabalho. Quem conhece esse paranaense de fala mansa, com jeito de gaúcho e cara de alemão, não imagina quanta história ele carrega. História de luta, ressalte-se.

Abaixo, nota de O Globo de ontem sobre o reencontro de Augustino e Curió. Abaixo dela, o texto, com links para alguns dos fatos citados.

O Globo, 29/05/2009

O Globo, 29/05/2009

Curió: júri popular

O coronel Sebastião Curió, da Guerrilha do Araguaia, vai a júri popular no próximo dia 5, em Sobradinho (DF). É acusado de assassinar um menor de rua com tiro nas costas, de pistola Beretta, em 1993. O militar alega que agiu em legítima defesa. O Ministério Público o denunciou por homicídio qualificado. Curió seria julgado em 2008 no TJ do Pará. Era prefeito de Curianópolis, mas perdeu o foro privilegiado. Teve o mandato cassado.

O militante reencontra o militar

Do lado da acusação, no julgamento de Curió, vai estar o advogado Augustino Veit (foto), um militante dos direitos humanos. Veit, pode-se assim, dizer, é um antigo conhecido do réu. Esteve sob a mira de seus soldados, e frente a frente com o coronel, na Encruzilhada Natalino (RS), no ato inaugural do MST, nos anos 80. Foi uma ação de resistência de sem-terra contra o governo militar. Em 93, quando ocorreu o assassinato do menor, Veit, já em Brasília, assessorava o Movimento de Meninos e Meninas de Rua. Assumiu o caso. O advogado integra e presidiu a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo.

*****

Encruzilhada Natalino é um dos episódios mais importantes das décadas recentes da história brasileira. Obviamente, não figura nos livros oficiais. As famílias do acampamento lá erguido resistiram ao assédio das tropas do coronel Curió, que já havia desmantelado a Guerrilha do Araguaia e impedido a intensificação da organização política em Serra Pelada, no Pará. Vale muito a pena ler a reportagem de Nina Fideles e Joana Tavares, também linkada acima. Ali, não apenas nascia o MST. Naquele local, em Ronda Alta, pequeno município no noroeste do Rio Grande do Sul, renascia, em larga escala, um sentimento muito especial, sufocado pela ditadura civil-militar, com enorme poder de contágio e mobilização: renascia a crença na derrota possível e necessária da injustiça e da indignidade, então representadas pela ditadura, hoje representadas por outros atores e instituições.


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