Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 27/05/2009

Garapa, de José Padilha, é soco no estômago

Começo a escrever esse texto às 1h15, logo após entrar em casa e ligar o pc.

Chego da pré-estreia de “Garapa”, documentário dirigido por José Padilha* (“Tropa de Elite”, “Ônibus 174″…), baseado no trabalho realizado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a entidade fundada por Betinho e outros militantes da luta contra a fome e por justiça social.

A sessão especial foi organizada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Estiveram presentes muitos militantes, além de parlamentares como o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o deputado federal Nazareno Fonteles (PT-PI) e a deputada federal Emília Fernandes (PT-RS).

Vários socos no estômago. Secos, certeiros e contínuos. Foi a sensação que tive durante e após o filme.

Trata-se de uma peça contundente no papel de expor as vísceras de uma sociedade que, por um lado, gasta 1,4 trilhão de dólares a cada ano com armamentos, destina (até o momento) mais de 12 trilhões desta moeda a gângsters de uma máfia que atende pelo nome de mercado financeiro e, por outro, não consegue destinar trinta bilhões de dólares para garantir a alimentação mínima a cerca de um bilhão de seres humanos.

Essa contradição – entre outras – foi citada por Padilha no debate que ocorreu após a exibição, encerrada sob um silêncio rotundo de toda a sala, abarrotada com cerca de trezentas pessoas.

Chico Menezes (Ibase) com o diretor José Padilha no lançamento do filme em Brasília(DF). Foto: Rogério Tomaz Jr.

Chico Menezes (Ibase) com o diretor José Padilha no lançamento em Brasília(DF). Foto: Rogério Tomaz Jr.

Como também fez questão de afirmar o diretor, o filme tem caráter universal. Aborda uma situação (a “luta” – ou a convivência? – contra a fome), em maior ou menor grau, comum a praticamente todos os países do mundo.

Cita pensamentos de Josué de Castro**, dados da FAO (agência da ONU atuante nas questões de agricultura e alimentação) e do Ibase e números do Bolsa Família (do qual tratarei aqui em breve).

Feito em preto e branco – “quando não se tem dinheiro pra comprar comida, falta tudo”, disse Padilha, explicando a sua opção –  e sem nenhuma música ou qualquer efeito audiovisual, “Garapa” foi filmado em Fortaleza e no interior do Ceará.

Entrará no circuito nacional de cinema (poucas cidades, certa e infelizmente) e festivais. Dentro de alguns meses, será exibido pelo Canal Brasil, empresa da Globo. Espera-se que seja exibido também na co-irmã Rede Globo, embora o genêro documentário tenha pouquíssimo apelo comercial (leia-se: capacidade de lucro, segundo os critérios dele$).

Antes de ir para as telas dos pouquíssimas assinantes do Canal Brasil, entretanto, é possível que “Garapa” seja exibido na Câmara e/ou no Senado, em sessão(ões) especial(is), quiçá com a audiência em peso dos deputados e senadores.

Como peça de imenso valor para o interesse público, seria excepcional se assembleias estaduais e câmaras de vereadores (a começar pelas do Ceará) realizassem audiências públicas sobre o tema, exibindo o filme como parte das mesmas.

O sono foi embora. Espero que não demore a chegar. Escreverei mais sobre essa obra.

*José Padilha, vale registrar, ganhou o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cinema de Berlim, Alemanha, um dos mais importantes prêmios do mundio, com “Tropa de Elite”, seu primeiro longa-metragem de ficção.

**Josué de Castro, tal qual Paulo Freire, Betinho, entre tantos outros, é tão desconhecido pela sociedade brasileira quanto é importante para a mesma, através das suas ideias e do seu exemplo de vida. Completaria 100 anos em 2008.

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Responses

  1. Me bata uma “GARAPA”!. A fome brasileira atualizada no cinema.

    Me bata uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata; como de sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um dito baiano que “… exprime um sentimento de um momento raivoso do tipo não me enrole, ou…”. No lugar comum desta expressão tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação cinematográfica do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA. Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos chegou como remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente no uso de terras brasileiras. Roubados e largados à própria sorte como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações indígenas e quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que (a despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a fome) parecia estar em plena forma de vitalidade física – subindo e descendo os muros do casebre. Outro sentimento foi à satisfação de pensar que a GARAPA, largamente batida pelos protagonistas do documentário pudesse significar uma desdita a soberba do diretor quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu estomago. O Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da descoberta da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma leitura critica da produção acadêmica à fome castreana?
    Castro teria leitores? ou seguidores? como ele descobriu e inventou a fome desde 1930?

  2. […] Padilha, importante lembrar, deu um soco no estômago na sociedade brasileira com seu documentário “Garapa”, que retrata a fome e os distintos níveis de insegurança alimentar de três famílias no Ceará, […]

  3. […] Padilha, importante lembrar, deu um soco no estômago na sociedade brasileira com seu documentário “Garapa”, que retrata a fome e os distintos níveis de insegurança alimentar de três famílias no Ceará, […]

  4. quanto foi gasto para fazer o documentario garapa?
    quem narra?


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