Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 04/05/2009

Márcio Jerry: “Jackson fez sua opção e nela não nos cabia mais”

Jornalista, ex-professor da UFMA, Márcio Jerry preside hoje o diretório municipal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em São Luis (MA), depois de ter passado mais de duas décadas no Partido dos Trabalhadores (PT), onde também exerceu cargos de direção.

Marcio Jerry, presidente do PCdoB de Sâo Luís (MA)

Marcio Jerry, presidente do PCdoB de Sâo Luís (MA)

Militante disciplinado, foi também coordenador da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e chefe de gabinete da gestão de Jomar Fernandes à frente da Prefeitura de Imperatriz (2001-2004), segunda maior cidade do Maranhão.

Criticado por boa parte dos ex-companheiros, recebido com pompa pelos atuais camaradas, Márcio Jerry é um dos principais mentores atuais do PCdoB, partido marcado pelo apoio ao governo Roseana Sarney nos dois mandatos (1995-1998/1999-2002), deixando a base sarneísta apenas quando firmou a aliança nacional que elegeu Lula em 2002.

Um dos principais responsáveis pelos resultados eleitorais do PCdoB nas eleições 2008, quando garantiu duas vagas na Câmara Municipal da capital (contra nenhum do PT) e quase levou o deputado federal Flávio Dino ao comando do Palácio La Ravardiere, Márcio Jerry, na minha opinião, foi um dos militantes mais injustiçados pelo PT do Maranhão – o caso dele não é único. E, não à toa, o PT maranhense é o pior do Nordeste e um dos três piores do Brasil em termos de resultados eleitorais e políticos (os cargos graúdos do governo federal no Maranhão, por exemplo, são quase todos indicados por Sarney).

Confira a entrevista franca que fiz por e-mail com Márcio Jerry, de quem me tornei próximo devido a afinidades políticas, intelectuais, futebolísticas, geográficas e de visão de mundo em geral.

Como o PCdoB avalia a cassação de Jackson Lago e o que isso significa para a Frente de Libertação do Maranhão?

A cassação de Jackson Lago interrompe uma expectativa que já se frustrara: a de que ele conduziria o Maranhão a uma transição política para a renovação, o futuro, a um novo padrão de gestão pública. O PCdoB integrou, corretamente, a Frente de Libertação no segundo turno de 2006 e participou do governo, mesmo em posição marginalizada. Mas desde as eleições de 2008, quando Jackson Lago apoiou a opção conservadora, operou  a transição ao passado, no sentido inverso do que se esperava,  com a candidatura de João Castelo, que esta relação ficou arranhada. Jackson, afinal, fez sua opção e nela não nos cabia mais.

Existiu a discussão interna sobre a participação do PCdoB no governo Roseana Sarney, visto que o partido faz parte dos dois mandatos anteriores da governadora, retirando-se apenas pouco antes das eleições de 2002?

O PCdoB não pautou se iria ou não para o governo Roseana Sarney, porque esta hipótese nunca foi apresentada por ninguém da direção nem tampouco a governadora formulou convite. O partido, em reiteradas reuniões, discutiu a nova conjuntura que se abre com a cassação de Jackson e a volta de Roseana. Ou seja, foi um debate mais profundo. E diante de uma mentira plantada num blog do sistema Mirante, da família Sarney, de que nós iríamos para o governo, divulgamos uma nota nos posicionando neste novo cenário. Roseana Sarney pode ter especulado sobre convidar o deputado Flávio Dino, uma liderança emergente no Maranhão, o que é um direito dela. Como diante de um eventual convite é direito do Flávio, do PCdoB, dizer não. Seguimos na mesma pegada, qual seja, a de buscar a composição de um campo política progressista, democrático e popular no Maranhão.

Em que pé está o processo contra o prefeito João Castelo por conta dos fatos na eleição que a coligação do candidato Flávio Dino apontou como abuso de poder econômico e tantativa de compra de voto? O partido acredita na cassação do prefeito?

São três processos, um dos quais com a chamada fase de instrução concluída aguardando a decisão do juiz. As outras duas em instrução. São fatos graves, alguns apurados pela Polícia Federal, existem provas consistentes em todos os processos, razão pela qual esperamos que a legítima e livre vontade popular adulterada pela força do dinheiro, pela compra de votos, pelo abuso do poder econômico e do poder político, seja restabelecida.

A nota crítica sobre os primeiros cem dias da gestão municipal será acompanhada de ações concretas, na Câmara ou em outras esferas políticas?

Convidamos os companheiros do PT e dos movimentos sociais para organizarmos juntos um seminário de avaliação do governo Castelo. Será no dia 08 de maio próximo, ocasião em que apresentaremos um painel sobre o que estaria sendo feito em São Luis nestes 100 dias no governo da Unidade Popular, bem como uma avaliação de todos os setores da administração pública neste mesmo período do governo Castelo. No seminário encontraremos coletivamente outras formas de agira no contexto de São Luís.

Por fim, ainda hoje você é muito criticado por alguns petistas, acusado de oportunista e até de carreirista, por ter saído do partido no qual passou mais de duas décadas. O que você tem a dizer sobre isso?

Crítica injusta, sem sentido. Nenhum destes “ismos” sobrevive no confronto com a minha história de vida, com a minha dedicação, desde a adolescência, à mesma causa, ao mesmo sonho generoso, à mesma compreensão de que, como diz o poeta e eu tive o prazer de repetir como slogan de campanha em 90, “gente é pra brilhar, gente é pra ser feliz” e isso só com uma outra ordem econômica e social, com outro paradigma de organização do Estado e da sociedade, só com todo o ideário estabelecido na concepção socialista. Lembro que antes de ingressar no PT, fui da Juventude Viração, ligada ao PCdoB e tinha uma militância, digamos assim, semi-orgânica no partido. Fui para o PT no início de 1986 e quando sai  expus claramente o porquê e mais que críticas recebi muitos e desalentados “tens razão”. E o PT será sempre, meus amigos petistas sabem bem, parte importante da minha vida, do meu aprendizado, das minhas saudades, e também da minha vivência – vivência prática, concreta – revolucionária. Mas está em curso no Maranhão uma reconfiguração do campo de esquerda e é neste contexto que o PCdoB se fortalece e hoje joga um papel fundamental no Maranhão. Presido o partido em São Luís, integro a direção estadual, e com muita alegria posso dizer que estou no meio de muitos dos melhores quadros da esquerda maranhense e brasileira.
*Datas erradas dos mandatos citados (Roseana e Jomar) corrigidas em 6/5, graças ao toque do atento amigo e conterrâneo Daniel Fonseca.

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