Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 10/04/2009

Brasil tem poucos funcionários públicos

Crescemos ouvindo – dos políticos do PSBD, do PFL e de seus porta-vozes na grande mídia e no mundo empresarial – que o Brasil tinha funcionários públicos demais, que a “máquina estatal” era inchada e, ultimamente, que o governo Lula acentuou isso ainda mais.

Na semana passada [esse post é de 2009!], uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) derrubou mais essa falácia da direita* brasileira.

Ao contrário do que tucanos, demo-pefelês e grande mídia afirmam, o Brasil não possui um Estado “inchado”. Ao contrário, temos uma máquina pública até mais enxuta do que a meca do capitalismo. [confira o gráfico abaixo]

Enquanto os Estados Unidos possuem 15,2% da sua população economicamente ativa trabalhando para o poder público, no Brasil esse percentual é de apenas 10, 9% (dados de 2006). Na França (2001), chega a 27,1%. No Reino Unido, 16,9%. Na Austrália, 18,8%. No Canadá, 19,9%. Na Itália, 23,3%. Já a Dinamarca tem 39,2% de sua força de trabalho a serviço do Estado, enquanto a Suécia tem 38,2%.

Na realidade, estamos à frente apenas do Japão (7,5%) em termos de “máquina enxuta”. E a verdade é que ainda precisamos reestruturar muito a administração pública para que os serviços melhorem e isso demanda mais pessoal, bem como mais tecnologia e organização da gestão, obviamente.

Segundo o levantamento do Ipea, mesmo entre os nossos vizinhos de América Latina o setor público é menos preponderante. “Tomando-se em consideração os anos mais recentes (desde 2000), percebe-se que, estruturalmente, na Argentina, na Costa Rica, no Panamá, no Uruguai e na Venezuela o peso relativo do emprego público é maior do que no Brasil”, aponta comunicado do órgão divulgado no dia 30/03.

Mais dados aqui:

http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/maquina_publica.htm

[ATUALIZAÇÃO – 19/11/2013, 14h30]

Na realidade o que temos é um déficit de professores e técnicos nas universidades federais e institutos federais de ensino técnico, de profissionais de saúde (não só médicos) na rede pública, de defensores públicos (na casa dos milhares), de auditores fiscais, de policiais (no Brasil quase todo), de procuradores/promotores, entre outras funções essenciais para que tenhamos os serviços de qualidade que cobramos e merecemos. Mas isso, obviamente, custa muito e não é possível fazer tudo de uma vez só. E o pior de tudo é a hipocrisia da oposição (PSDB, DEM e PPS) defendendo “austeridade fiscal” ao mesmo tempo em que faz discurso no Congresso cobrando aprovação da#PEC300 – cujo impacto orçamentário imediato seria de R$ 43,5 bilhões, dos quais R$ 30 bilhões para os estados – e mais um monte de desoneração e subsídios…

[Continuação do post original de 2009]

Li uma nota sobre isso no Walter Rodrigues (1/4), citando matéria do Correio Braziliense.

Mas só publiquei hoje após ver matéria do Jornal Nacional dizer que uma reserva de 1,3 milhões de hectares na Amazônia – metade do estado de Alagoas – é fiscalizada por dois funcionários!

Nesse caso, a hipocrisia da grande mídia e dos (que se julgam) donos do país é dupla: acusam o governo de ineficiente na fiscalização e conivente com o desmatamento, mas criticam duramente a “farra com os gastos públicos” representada, segundo eles, pela realização de concursos públicos para aparelhar a máquina estatal, entre outros exemplos.

A insuficiência de pessoal ocorre em qualquer área da administração e em todos os níveis, federal, estadual e municipal. No entanto, o senso comum – mentiroso, no caso – é que temos funcionários públicos em excesso.

A realidade mostra o contrário: universidades**, escolas, hospitais, polícias e demais instituições de segurança pública, promotorias e defensorias, previdência social, bibliotecas, reservas ambientais, parques nacionais… tudo isso (e muito mais) funcionando precariamente por falta de funcionários, além de baixos salários, condições inadequadas de trabalho etc.

Portanto, temos que exigir dos governos a realização de mais concursos públicos, juntamente com treinamento, saários justos e boas condições de trabalho para que os impostos que pagamos sejam retribuídos na forma de serviços de qualidade, que garantam os nossos direitos constitucionais.

População ocupada no setor público

População ocupada no setor público

*Essa nota estréia no blog a categoria “Mentiras da direitona”. Muitas outras estão a caminho e contribuições são muito bem vindas.

**Fico devendo para outro dia uma nota sobre o déficit de pessoal (professores e funcionários) na educação pública brasileira, em todos os níveis.


Responses

  1. e tem outra coisa também: tem muito funcionário público que não faz porra nenhuma. a distribuição de funcionários no serviço público é meio estranha, assim como a supervalorização da hierarquia e a burocracia desnecessária, que às vezes atrapalham quem quer trabalhar. digo isso pq vivo situações assim. e às vezes dá a sensação de que há mais funcionário do que seria necessário em alguns setores. mas isso é uma questão de gestão, acredito.

  2. O problema é que esses 10% do Brasil são na grande maioria na burrocracia brasileira: “instituto de não sei-o-que-lá”, “30° tribunal do blá, blá, blá”, “anexoXXXXX do ministério de relação profana e do saber eclético”, e por ai vái. Tem muito funcionário público sim, fazendo nada ou quase nada. Nos outros países, eles estão na segurança pública, nas forças armadas, na saúde, etc, etc

  3. […] Em 2009, o Ipea divulgou estudo comparativo entre vários países, medindo o percentual da ocupação do setor público no total da população empregada. Escrevi sobre isso no texto “Brasil tem poucos funcionários públicos”. […]

  4. […] Em 2009, o Ipea divulgou estudo comparativo entre vários países, medindo o percentual da ocupação do setor público no total da população empregada. Escrevi sobre isso no texto “Brasil tem poucos funcionários públicos”. […]

  5. Tem mais dados nessa pesquisa: pouco menos de 50% dos servidores públicos estão nos municípios – tradicionais cabides de emprego de servidores sem qualificação, ao sabor das ondas políticas locais. Se fosse possível fazer o devido desconto, a relação (servidores que efetivamente trabalham para os cidadãos X população) cairia bem mais. Na verdade, faltam servidores, e, por isso, faltam serviços de qualidade nas áreas essenciais para a população: o resultado é que o Brasil já tem um Estado Mínimo na saúde, na educação – principalmente a Federal – na máquina judiciária e no Ministério Público, no atendimento da previdência, na maioria das polícias, e por aí vai.


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